A Bhagavad Gita, a “Canção do Senhor”, integra o Mahabharata, uma das grandes epopeias da tradição indiana. Escrita em sânscrito e composta em período cuja datação permanece discutida, apresenta um dos diálogos mais extraordinários da literatura espiritual: no campo de Kurukshetra, momentos antes de uma guerra devastadora, o guerreiro Arjuna entra em colapso diante de Krishna. A situação é terrível. Do outro lado do campo estão parentes, amigos, mestres e pessoas que fizeram parte de sua história. Arjuna conhece seu dever como guerreiro, mas, quando contempla aqueles que deverá enfrentar, suas convicções desmoronam. O arco cai de suas mãos, o corpo enfraquece, a mente se confunde e ele já não sabe o que fazer. É exatamente nesse momento que Krishna começa a falar.
Talvez essa seja a primeira grande imagem que devemos guardar: a revelação não acontece num templo, numa montanha distante ou quando todos os problemas terminaram. Acontece no campo de batalha. Arjuna não recebe a Verdade depois de resolver seus conflitos; é justamente quando tudo aquilo que acreditava saber se torna insuficiente que outra compreensão começa a surgir. O personagem chegou ao limite de suas próprias respostas.
Talvez todos nós conheçamos Kurukshetra. Existem momentos em que aquilo que sustentava nossa identidade deixa de funcionar, as crenças já não respondem, as certezas perdem força, os papéis entram em contradição e aquilo que acreditávamos ser começa a rachar diante de uma realidade que não conseguimos mais organizar. É quando o arco cai. Arjuna pode ser compreendido, simbolicamente, como essa consciência humana mergulhada no drama da existência. Ele vê amigos e inimigos, vitória e derrota, perda e conquista, vida e morte. Está emocionalmente comprometido com aquilo que acontece porque se encontra identificado com o personagem que participa da batalha. Krishna olha de outro lugar. Arjuna pergunta a partir do personagem; Krishna responde a partir do Ser.
A Bhagavad Gita pode ser lida historicamente, religiosamente, filosoficamente ou simbolicamente. Não pretendo reduzir um texto dessa magnitude a uma única interpretação, mas existe uma leitura interior extraordinariamente fecunda: Kurukshetra pode também ser compreendido como o campo onde nossas próprias identificações entram em conflito. E existe um detalhe fascinante: os inimigos de Arjuna não são desconhecidos. São pessoas próximas, têm nomes, rostos e uma história compartilhada com ele. Aquilo que precisa perder seu poder sobre nós também raramente se apresenta como um inimigo evidente. Estamos apegados às nossas crenças, aos nossos medos, às nossas mágoas, às nossas histórias e às imagens que construímos de nós mesmos. Estamos apegados até mesmo a determinadas formas de sofrimento porque, depois de muitos anos, elas passaram a participar daquilo que chamamos de “eu”. O inimigo tem um rosto conhecido. Talvez seja justamente por isso que seja tão difícil enfrentá-lo.
Não estamos falando de destruir partes de nós mesmos, muito menos de travar uma guerra psicológica contra desejos, emoções e pensamentos. Essa também seria uma forma de aprisionamento. Aquilo que combatemos obsessivamente continua determinando nossa existência pela própria necessidade de combatê-lo. Não precisamos matar o medo; precisamos deixar de obedecê-lo. Não precisamos destruir o desejo; precisamos deixar de acreditar que ele nos completará. Não precisamos eliminar a sombra; precisamos iluminá-la. Não precisamos assassinar o personagem; precisamos descobrir que não somos apenas ele.
É nesse sentido que o campo de batalha se torna interior. O verdadeiro conflito começa quando percebemos que muitas das estruturas que governam nossa existência não são aquilo que somos. São condicionamentos, memórias, identificações, desejos, medos e histórias que adquiriram tamanha autoridade que passaram a falar em nosso nome. Dizemos “eu sou assim”, mas raramente investigamos quem é esse “eu”. Talvez uma das maiores dificuldades da busca espiritual esteja justamente aqui: passamos tanto tempo representando determinado personagem que qualquer ameaça à sua continuidade parece uma ameaça à nossa própria existência. Arjuna não está simplesmente diante de inimigos; está diante de tudo aquilo que conhece. Romper uma identificação é também despedir-se de uma parte da história que utilizávamos para explicar quem somos. Por isso o arco cai. Há momentos em que o personagem prefere abandonar a batalha a descobrir aquilo que existe além dele.
Podemos aproximar essa leitura, com os devidos cuidados, da ideia junguiana da sombra. Aquilo que não reconhecemos em nós não desaparece; continua atuando, projetando-se sobre o mundo, interferindo em nossas escolhas e construindo relações subterrâneas com a consciência. O campo de Kurukshetra pode, nessa leitura, tornar-se também o lugar simbólico onde aquilo que estava oculto finalmente precisa ser visto. Mas Krishna não aparece apenas como um psicólogo de Arjuna. Sua palavra aponta para algo muito mais radical: desloca a discussão do drama pessoal para a própria natureza da existência. Arjuna está preocupado com aquilo que nasce e morre; Krishna aponta para aquilo que não nasce nem morre. Arjuna vê corpos; Krishna fala daquilo que não pode ser reduzido ao corpo. Arjuna está preso às consequências; Krishna lhe ensina a agir sem fazer dos frutos da ação uma condição para sua paz.
Aqui encontramos uma das grandes inversões da Gita. O problema não é agir, mas acreditar que nossa plenitude depende do resultado da ação. Agimos, trabalhamos, escolhemos, construímos, amamos, lutamos e participamos do mundo; nada disso precisa desaparecer. O aprisionamento começa quando dizemos à existência: “Só estarei em paz se isso acontecer”, “só serei feliz se conseguir aquilo”, “só poderei descansar quando vencer”, “só estarei inteiro quando o mundo corresponder aos meus desejos”. É exatamente aí que entregamos nossa liberdade aos frutos da ação. A ação deixa de ser ação e transforma-se em negociação com a realidade. Fazemos alguma coisa esperando que o Universo nos pague. Krishna rompe essa lógica: faça aquilo que precisa ser feito, mas não entregue aquilo que você é ao resultado.
Essa talvez seja uma das formas mais profundas de liberdade. O mundo pode responder como esperamos ou não. A vitória pode acontecer ou não. Pessoas podem permanecer ou partir. Projetos podem prosperar ou fracassar. O corpo pode obedecer aos nossos desejos durante algum tempo e depois deixar de fazê-lo. O transitório continuará sendo transitório. A questão é descobrir se nossa paz continuará dependendo dele.
Nesse ponto, a antiga imagem do herói também começa a mudar. Durante muito tempo podemos imaginar a espiritualidade como uma grande batalha na qual o herói precisa derrotar seus monstros interiores, superar seus defeitos, vencer seus medos e finalmente conquistar uma condição superior. Mas talvez ainda exista ego demais nessa interpretação. O personagem quer tornar-se vencedor, quer evoluir, iluminar-se, subir, conquistar o Reino, tornar-se alguém espiritualmente extraordinário. Mudaram os objetivos, mas a estrutura permanece a mesma. Antes o ego queria possuir o mundo; agora quer possuir Deus. Antes desejava reconhecimento; agora deseja iluminação. Antes queria sentar-se no trono social; agora quer sentar-se no trono espiritual. O personagem apenas trocou de roupa.
Talvez a grande batalha não termine quando o herói derrota todos os inimigos. Talvez termine quando descobrimos que até o herói fazia parte da história. É por isso que a imagem do reino perdido continua sendo tão poderosa, desde que compreendida de outra maneira. Não precisamos conquistar o Reino; precisamos descobrir que nunca fomos expulsos dele. O filho pródigo não constrói a Casa quando retorna, o buscador não produz o Ser através de suas práticas e Arjuna não fabrica sua Verdadeira Natureza no campo de Kurukshetra. Aquilo que somos não está esperando no final da batalha como um troféu entregue aos vencedores. Esteve presente durante todo o conflito. O exílio aconteceu no personagem, nunca no Ser.
Isso também nos permite aproximar, simbolicamente, a espada mencionada por Jesus dessa mesma experiência de ruptura. Não precisamos imaginar uma espada utilizada para destruir pessoas ou partes de nós mesmos. A espada corta identificações, separa aquilo que acreditávamos ser daquilo que começamos a perceber que somos. Toda compreensão profunda possui alguma coisa de espada: depois que enxergamos, determinadas ilusões já não conseguem recuperar completamente sua antiga inocência.
Talvez por isso o despertar possa ser doloroso. Não porque exista uma dinâmica cósmica interessada em nos fazer sofrer para evoluirmos, mas porque determinadas identificações não desaparecem sem resistência. O personagem quer continuar existindo exatamente como sempre existiu. Quer preservar sua história, suas razões, seus ressentimentos, suas certezas e até sua busca espiritual. Mas aquilo que somos não precisa ser preservado. Somente aquilo que pode desaparecer precisa lutar desesperadamente pela própria continuidade.
E então podemos voltar a Arjuna. Ele está no campo de batalha, o arco está no chão, sua mente está confusa e tudo aquilo que conhece parece desmoronar diante de seus olhos. Krishna está ali. Talvez essa seja uma das imagens mais extraordinárias de toda a narrativa: Krishna não retira Arjuna de Kurukshetra, não suspende a guerra, não elimina seus inimigos, não lhe promete uma existência sem conflitos nem o conduz para uma realidade onde nada mais poderá perturbá-lo. A revelação acontece exatamente onde o conflito está acontecendo.
Talvez passemos grande parte da vida esperando que nosso Kurukshetra desapareça. Queremos primeiro resolver os problemas, eliminar as angústias, organizar as finanças, encontrar a pessoa certa, curar todas as feridas, silenciar a mente e colocar a vida em ordem. Depois, finalmente, encontraremos paz. Mas talvez estejamos esperando aquilo que nunca acontecerá. A existência não precisa tornar-se silenciosa para que descubramos o Silêncio. O mundo não precisa parar para que encontremos aquilo que não se move. O personagem não precisa vencer todas as suas batalhas para que o Ser seja aquilo que sempre foi.
Kurukshetra não é um acidente no caminho. É o próprio campo da experiência. É aqui que amamos, perdemos, desejamos, sentimos medo, envelhecemos, vemos pessoas chegarem e partirem e assistimos às nossas certezas desmoronarem. É aqui que o arco cai das nossas mãos. E é exatamente aqui que Krishna fala.
Talvez o ensinamento mais profundo não seja aprender a vencer a guerra, mas descobrir quem somos enquanto a guerra acontece. Arjuna precisará levantar novamente o arco, a ação continuará necessária, o mundo continuará sendo mundo e a batalha seguirá seu curso. Mas alguma coisa pode ter mudado radicalmente. Não porque Arjuna tenha evoluído, se tornado superior ou conquistado uma nova condição espiritual, mas porque começa a perceber que talvez nunca tenha sido apenas aquele guerreiro aterrorizado no meio do campo.
A batalha pertence a Arjuna. Aquilo que Arjuna verdadeiramente é jamais esteve em guerra.
Transconhecimento
Reflexões & Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Compartilhe seu pensamento!
Deixe sua perspectiva