Em que consiste a liberdade? Para muitos, essa é uma pergunta impossível de responder, pois sequer percebem que são escravos. Estão tão ajustados ao cárcere que ignoram o que é ser livre. Talvez o escravo que reconhece suas correntes esteja mais próximo da liberdade do que aquele que aprendeu a chamá-las de escolhas.
Libertar-se é quebrar as correntes que nos prendem a um sistema de crenças. É deixar de valorizar padrões e tradições que determinam nossas reações e influenciam nossas escolhas. Libertar-se é conhecer a própria natureza, perceber que nada, absolutamente nada, pode atingir aquilo que somos em essência. Carregamos em nossa natureza atributos que, se plenamente realizados, nos fariam parecer verdadeiros deuses. Por fim, libertar-se é assumir o próprio poder e cessar a transferência de autoridade para os outros, para o mundo, para o sistema ou para qualquer entidade transcendental.
Ora, aquilo que é eterno é eterno. Portanto, ostenta uma estabilidade que não pode ser atingida ou destruída pelos enredos mentais, sejam quais forem. A eternidade é um dos atributos daquilo que somos. Não temos consciência disso justamente por estarmos identificados com aquilo que morre, com o impermanente, com o que surge e desaparece no tempo — com o ilusório. Conhecer o real, aquilo que somos para além dessas identificações: a isso podemos chamar de realização.
Livre, portanto, não é aquele que deixou de sentir. É aquele que não entrega àquilo que sente o governo de si mesmo. Pode ser ferido sem transformar a ferida em identidade. Pode sentir tristeza sem pertencer à tristeza. Pode experimentar o medo sem permitir que o medo decida por ele. Pode ser ofendido sem carregar a ofensa consigo.
É aquele que consegue oferecer a outra face, não porque seja fraco ou indiferente, mas porque já não vive como escravo das próprias inclinações. Não é regido pelo medo nem pelo ódio. Descortinou, ainda que parcialmente, o véu da ignorância que o prendia a uma realidade ilusória e começou a perceber aquilo que realmente é.
A liberdade só é possível com renúncia — quando você consegue desapegar-se de tudo: pessoas, coisas, crenças, convicções, padrões, conceitos... enfim, de absolutamente tudo. Mas renunciar não significa necessariamente abandonar. Podemos amar uma pessoa sem possuí-la, conviver com as coisas sem depender delas, utilizar conceitos sem transformá-los em verdades absolutas. Renunciar é deixar de precisar que algo permaneça conosco para sabermos quem somos.
Eis a lei simples e implacável:
aquilo que você consegue soltar, te liberta; aquilo que você segura, te escraviza.
Quanto mais condições impomos à nossa paz, menos livres somos. Preciso que alguém me ame. Preciso ser reconhecido. Preciso vencer. Preciso possuir. Preciso controlar. Preciso que as coisas aconteçam como desejo.
Cada “preciso” pode se transformar em uma corrente.
Talvez a verdadeira medida da liberdade não esteja na quantidade de coisas que podemos conquistar, mas na quantidade de coisas das quais conseguimos não depender.
A falta de luz nos levou à submissão a um mundo doente, regido por padrões violentos. Para sobreviver, tornamo-nos egoístas; aprendemos a lutar em vez de nos tratarmos como irmãos. Passamos a nos considerar adversários. Esse é o nosso estágio — essa é a casca do ovo que precisamos romper para conhecer um mundo maior.
Apesar do sofrimento, tememos nos desprender dessa “realidade” e não percebemos que grande parte daquilo que nos faz sofrer nasce justamente da resistência que impomos ao movimento natural da existência. Queremos permanência onde existe impermanência. Queremos controle onde existe fluxo. Queremos segurança absoluta em um mundo onde tudo se transforma.
A lagarta não precisa compreender a borboleta para que a transformação aconteça. Há momentos em que a rendição é o único caminho. Lutar contra o movimento da vida é como lutar contra o vento, tentando segurá-lo entre as mãos — um reflexo da nossa condição ainda infantil.
Estamos, de fato, no jardim da infância da evolução, conduzidos por desejos e viciados em sensações grosseiras. Presos ao mundo das formas, hipnotizados pela paisagem, permanecemos inconscientes da grandeza que existe em nosso ser.
O poeta Augusto dos Anjos, em Versos Íntimos, escreveu:
“O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.”
É exatamente isso. Tornamo-nos agressivos, violentos, beligerantes quando nos integramos à ferocidade do mundo e aceitamos suas regras como se fossem as únicas possíveis. Lutamos com todas as nossas forças em busca da libertação, sem perceber que, muitas vezes, a própria luta se transforma na última corrente que nos prende.
Passamos a vida com a espada nas mãos.
Lutamos contra pessoas, acontecimentos, perdas, mudanças, opiniões, contra o passado e até contra nós mesmos. Queremos derrotar o mundo para finalmente encontrar a paz.
Talvez seja justamente o contrário.
É preciso, em algum momento, soltar a espada no chão.
Não por covardia. Não por resignação. Não por indiferença. Mas porque compreendemos que existem batalhas que só continuam enquanto insistimos em lutar. A verdadeira liberdade não exige que abandonemos o mundo, mas que deixemos de permitir que o mundo nos governe por dentro.
Podemos continuar vivendo, trabalhando, amando, construindo, criando, desejando e participando da existência sem transformar cada experiência em uma corrente. Não é preciso fugir do mundo das formas. É preciso deixar de acreditar que somos apenas aquilo que nele aparece e desaparece.
Aquele que compreende isso, ainda que em silêncio, já começou a se libertar.
Porque talvez liberdade não seja poder fazer tudo aquilo que desejamos. Isso ainda pode ser escravidão ao desejo.
Liberdade é não precisar que o mundo corresponda às nossas exigências para permanecermos inteiros.
É poder ter sem possuir.
Amar sem aprisionar.
Sentir sem ser governado pelo sentimento.
Viver sem se agarrar.
E partir quando for preciso partir.
A liberdade não é algo que conquistamos acrescentando poder sobre a vida. Ela começa justamente no movimento contrário: quando soltamos, uma a uma, as correntes que confundíamos com necessidades.
No final, talvez reste uma verdade desconcertantemente simples:
quanto menos você precisa, mais livre você é.
Transconhecimento
Reflexões & Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Compartilhe seu pensamento!
Deixe sua perspectiva