O homem só alcançará a libertação quando conseguir distinguir entre o mundo das aparências e a Realidade.
O mundo que nos cerca, a vida com a qual estamos identificados, o corpo, os outros, as formas — tudo isso pertence ao mundo das aparências. Quanto mais envolvidos estivermos com esse universo, mais dificuldades teremos para nos desidentificar dele.
Sabemos que é muito difícil compreender isso. O homem que ainda não passou pela experiência da Graça ostenta um véu sobre a consciência e, por não ter conseguido emergir à superfície desse campo ilusório, não conhece outra realidade. Como poderia compreender aquilo que é Real, eterno, que não nasceu, que não morrerá e que permanece como testemunha silenciosa de todos os processos mentais? Afinal, o que vocês acham que Jesus queria dizer com vida eterna? E se a vida eterna não significar simplesmente viver para sempre, mas descobrir aquilo em nós que nunca nasceu e que, portanto, nunca poderá morrer?
O homem vive procurando por si mesmo como um peixe procurando o oceano. O despertar da Consciência passa pela compreensão de que aquilo que ele busca é justamente aquilo em que está imerso. Mas talvez essa metáfora ainda seja insuficiente. Não se trata propriamente do peixe procurando o oceano, mas do peixe procurando o próprio peixe. Enquanto imaginarmos que existe o peixe de um lado e o oceano do outro, a separação continua. Nossa ignorância é ainda mais profunda: somos aquilo que procura, aquilo que é procurado e o próprio campo onde essa busca acontece.
O personagem que nasce e morre, que encarna e desencarna, é o personagem de um filme com o qual nos identificamos. Esse filme começa e termina, assim como o personagem. A grande dificuldade consiste em compreender que não somos esse personagem, mas aquele que observa — o espectador sentado na poltrona, que já existia antes de o filme começar e continuará ali quando as luzes se acenderem. Mesmo que exista um naufrágio no filme, o espectador não se molhará; mesmo que exista um incêndio, não se queimará. Tudo acontece no filme, mas nada acontece com aquele que observa.
Talvez possamos ir ainda mais longe. Nem mesmo a imagem do espectador é suficiente, porque ainda preserva uma separação entre aquele que vê e aquilo que é visto. Pensemos, então, na própria tela. Um incêndio pode consumir uma cidade inteira nela, mas a tela não queima; um oceano pode cobri-la completamente, mas ela não se molha; uma guerra pode matar milhares de personagens, mas nenhuma ferida permanece quando o filme termina. As imagens passam, a tela permanece. Talvez seja exatamente esse o nosso grande equívoco: identificamo-nos com aquilo que aparece e desaparece e esquecemos aquilo em que todas essas aparições acontecem. Você não é aquilo que aparece; você é aquilo em que tudo aparece.
O Real está, ao mesmo tempo, próximo e distante. Próximo porque nunca estivemos separados dele; distante porque, enquanto permanecermos identificados com as aparências, seremos incapazes de reconhecê-lo. Por enquanto, conhecemos quase somente as aparências, mas virá o tempo em que despertaremos desse sonho, como os companheiros de Ulisses que, depois de provarem o lótus, esqueceram-se do retorno e desejaram permanecer naquele estado de entorpecimento. Talvez estejamos fazendo exatamente isso: provamos o mundo, fomos seduzidos por suas formas e esquecemos o caminho de volta.
Sofremos sem perceber que o sofrimento é um cálice amargo, mas necessário. Talvez ele represente justamente o desconforto produzido pela distância entre aquilo que somos e aquilo que acreditamos ser. O personagem sofre até que, em algum momento, o próprio sofrimento se torne insuportável e uma pergunta finalmente apareça: quem é que está sofrendo? Essa pergunta pode abrir uma enorme fenda na estrutura do falso eu.
Entender aquilo que somos significa vencer a morte. Não a morte física, pois o corpo continuará submetido às mesmas Leis da Natureza: nascerá, envelhecerá e desaparecerá. Vencer a morte significa superar a identificação com tudo aquilo que é transitório, impermanente, que aparece e desaparece, e reconhecer aquilo que permanece quando todas as formas forem consumidas. Vencer a morte não significa impedir que o personagem morra, mas descobrir que você nunca foi o personagem.
Venha para o Real. Abandone essas falsas necessidades, livre-se dos desejos, pare de viver ansioso e preocupado com metas, sonhos e buscas, querendo alcançar alguma coisa que está sempre um pouco mais adiante, como um cavalo perseguindo a cenoura pendurada diante dos olhos. O futuro é a vara onde a mente pendura a cenoura. E você corre atrás do dinheiro, do reconhecimento, do amor, da segurança, do sucesso, da iluminação, da felicidade, de Deus, sempre acreditando que alguma coisa finalmente lhe dará a sensação de completude. A cenoura, porém, continua um pouco mais adiante, porque você ainda não percebeu que, inconscientemente, está apenas procurando por Si Mesmo.
A renúncia é um atalho gigantesco para isso. Aprenda a renunciar às falsas necessidades, aos desejos que o escravizam, às imagens que construiu de si mesmo, à necessidade de aprovação, às convicções às quais se agarra, às expectativas e identificações. Renunciar não é empobrecer; é deixar cair aquilo que nunca lhe pertenceu. Talvez tenhamos tanto medo da renúncia porque acreditamos que desapareceremos se retirarmos tudo aquilo com que construímos nossa identidade. Quem serei sem minha história, minhas conquistas, meus desejos, minhas crenças e tudo aquilo que penso sobre mim? É justamente aí que começa a verdadeira investigação.
Quando não houver mais nada a que se agarrar, quando o personagem perder os elementos utilizados para sustentar sua existência fictícia, talvez aconteça aquilo que ele mais teme: ele desaparecerá. E então ficará evidente que aquilo que desapareceu nunca foi você. O corpo aparece e desaparece, os pensamentos aparecem e desaparecem, as emoções, os desejos, as crenças e o personagem também. Mas existe uma presença que testemunha todas essas aparições, a mesma que observou o corpo mudar, as ideias mudarem, os desejos mudarem, as pessoas chegarem e partirem e os cenários se transformarem. Tudo mudou diante dela; ela permaneceu.
Você passou a vida inteira procurando por Si Mesmo sem perceber a ironia colossal dessa busca. O peixe procurava o oceano, o personagem procurava o espectador, a imagem procurava a tela, a consciência procurava a Consciência. Até que a busca encontra seu próprio absurdo: aquele que procura é aquilo que está sendo procurado.
Nesse instante, não existe mais nada para encontrar, nenhum lugar para chegar, nenhum personagem para salvar e nenhum futuro onde a realização esteja escondida.
Pare de procurar.
Venha para o Real.
Transconhecimento
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