O homem comum interage com o mundo guiado pela própria insegurança. Sem perceber, vive de pires na mão, atrás de atenção. O que ele quer com isso? Parece não notar que está fugindo das próprias angústias ao projetar-se no mundo em busca de conversas e mais conversas. Precisa do barulho, talvez, por temer o silêncio. O vazio criado pela ignorância é assustador, pois a ignorância é a mãe de todos os nossos medos.

Infelizmente, não existem atalhos. Nenhuma fórmula mágica, ritual, receita — nada disso. O silêncio precisa ser confrontado, mas, para isso, será necessário livrar-se dos mecanismos de fuga criados justamente para evitar esse bom combate.

Só é possível aprender algo novo estando em silêncio. O novo se manifesta no silêncio. Quando falamos, entregamos aquilo que já sabemos; quando nos calamos, abrimos espaço para aquilo que ainda não sabemos. Só conseguimos nos tornar receptivos quando nos desarmamos e interrompemos esse diálogo constante com as vozes em nossa cabeça — ou quando deixamos de nos entreter com o mundo externo e fazemos essa inflexão.

E não estou falando apenas da ausência de sons. Alguém pode permanecer sozinho durante horas, num quarto silencioso, enquanto uma multidão continua falando dentro de sua cabeça. O verdadeiro silêncio é também psicológico. É quando deixamos de alimentar essa assembleia interminável de pensamentos, julgamentos, opiniões e personagens que disputam nossa atenção.

Quando atuamos no mundo verbalizando em excesso, dificilmente aprendemos algo novo. Apenas repetimos o que já sabemos, defendemos nossos pontos de vista, buscamos atenção para satisfazer nossa vaidade, nosso orgulho — enfim, revelamos nossa insegurança. Estamos o tempo todo projetando no mundo aquilo que construímos com a nossa própria ignorância, sem sequer perceber.

Falamos muito e, paradoxalmente, dizemos muito pouco.

A dura verdade é que falamos em excesso — e isso se constata nos acontecimentos prosaicos do dia a dia. Não percebemos que, ao começarmos uma conversa com um simples “bom dia”, em poucos instantes já estamos reclamando da vida, falando mal de alguém, protestando contra o governo, reportando desgraças. Não percebemos que entramos no lado negro da força quando deixamos o silêncio e a contemplação de lado e mergulhamos nesse abismo ilusório, despejando uns sobre os outros os conteúdos desajustados de nossas próprias sombras.

Jesus, o grande sábio, dizia que devemos reduzir nosso falar ao “sim, sim, não, não” — pois todo o resto seria de procedência maligna. E, como sempre, Jesus é uma boa companhia para nos guiar ao entendimento das coisas.

Falamos muito mais do que isso; aliás, falamos “sim” quando queremos dizer “não” e “não” quando queremos dizer “sim”. Falamos para agradar, para convencer, para parecer, para conquistar, para esconder, para atacar e para nos defender. Enfim, estamos fazendo tudo ao contrário.

Os grandes iluminados precisaram renunciar aos enredos da mente, às necessidades fictícias de verbalizar o tempo todo, ao apego à própria imagem e a todo tipo de carência para poderem alcançar outros estados de consciência. Buda atravessou anos de ascetismo e recolhimento antes de sentar-se sob a árvore Bodhi. Jesus jejuou e isolou-se no deserto para preparar-se para sua missão. Moisés afastou-se da multidão e subiu ao monte Sinai para falar com Deus.

Não é por acaso que o silêncio e o afastamento aparecem tantas vezes na trajetória daqueles que deixaram marcas profundas na humanidade. Foi no silêncio que encontraram sua força.

Comece a perceber a importância de ficar calado. Ouça mais. Abandone as conversas fúteis e desnecessárias no portão. Escute mais e aprenda mais. Deixe de contestar o tempo todo, de lutar como se estivesse atrás de uma trincheira para defender suas ideologias. Pare de dar tanta importância a este mundo impermanente, a essas pessoas que, como você, estão enfrentando suas próprias dificuldades.

Cale-se.

Busque o silêncio.

E talvez, nesse silêncio, você descubra algo desconcertante: o vazio que tanto temia não estava vazio. Era você que estava cheio demais — de opiniões, crenças, julgamentos, reclamações, desejos, certezas e ruídos — para perceber o que havia ali.

Existe um ditado popular que diz: “Temos dois ouvidos e uma boca, simplesmente para ouvirmos mais do que falamos.” Essa é uma profunda verdade. Nem a nossa própria constituição física nós respeitamos.

Talvez a Natureza esteja tentando nos dizer alguma coisa há muito tempo.

E, como sempre, estamos falando demais para conseguir ouvi-la.