Ninguém quer sofrer desilusões!
Quem nunca ouviu essa afirmação? Acredito que faça parte do senso comum, pois desiludir-se é algo que normalmente vem acompanhado de frustração, revolta e, às vezes, até indignação.
Esse é um equívoco ancestral que, infelizmente, tornou-se verdade. Criamos uma carga pejorativa enorme sobre a palavra desilusão, como se houvesse alguma coisa ruim em deixar de estar iludido.
Ora, pense um pouco: ilusão é uma coisa ruim; desilusão é uma coisa boa. Simples assim.
Ilusão é afastamento da realidade. Desilusão é retorno. Como poderia o retorno ser uma desgraça?
Talvez aquilo que chamamos de sofrimento provocado pela desilusão não venha propriamente dela, mas da morte daquilo em que acreditávamos. Não sofremos porque finalmente enxergamos. Sofremos porque alguma coisa que desejávamos que fosse verdadeira revelou-se falsa.
Construímos cenários ilusórios em nossa mente e nos refugiamos neles. Enchemos a cabeça de sonhos, desejos e expectativas e perdemos gradualmente a conexão com a realidade, acreditando que somente quando determinadas condições forem satisfeitas poderemos finalmente ser felizes.
“Serei feliz quando isso acontecer.”
“Serei feliz quando conseguir aquilo.”
“Serei feliz quando aquela pessoa mudar.”
E assim abandonamos aquilo que existe para viver naquilo que gostaríamos que existisse.
Em função dessa fuga, tornamo-nos detentos de um mundo projetado, ancorados na imaginação, presos ao futuro e completamente desconectados da realidade. Preferimos viver num mundo imaginário a aceitar a Vida como ela é, as coisas como são e as pessoas que encontramos pelo caminho como elas realmente se apresentam. Tudo aquilo que não se ajusta aos nossos propósitos é rejeitado porque ameaça o roteiro que escrevemos.
Toda ilusão precisa de um futuro para sobreviver. A Realidade só existe agora.
O Universo, através de seus mecanismos naturais, não aceita indefinidamente esse tipo de rebeldia e cria meios de nos trazer novamente ao chão. Deus não nos quer entorpecidos. Quando somos estapeados pela Vida, talvez estejamos apenas sofrendo as ações necessárias para sair desse estado de torpor criado por nossos próprios construtos mentais.
Às vezes, a desilusão é simplesmente a Vida arrancando de nossas mãos aquilo que insistimos em chamar de realidade.
E dói.
Dói porque estávamos apegados. Dói porque investimos emocionalmente naquela construção. Dói porque acreditávamos que a felicidade dependia da permanência de alguma coisa que, muitas vezes, nunca existiu fora da nossa cabeça.
Mas a dor não transforma a mentira em verdade.
Desilusão é uma coisa boa. Ilusão é uma coisa ruim.
Sem recursos emocionais suficientes para encarar a realidade, lançamos mão de todo tipo de mecanismo de fuga. A realidade não nos agrada e temos enorme dificuldade em conviver com a distância entre aquilo que queremos e aquilo que a Vida efetivamente nos oferece. Então sonhamos, projetamos, fantasiamos e esperamos.
A ilusão tem uma função: durante algum tempo, ela nos protege daquilo que ainda não conseguimos suportar. Talvez seja justamente por isso que nos agarramos tanto a ela.
Gostamos da corda que nos enforca porque, antes de apertar nosso pescoço, ela nos deu a sensação de segurança.
Não entendemos ainda que a cada um é dado segundo suas obras. A Vida nos coloca diante daquilo que construímos com nossa própria falta de consciência. Não há como fugir indefinidamente daquilo que carregamos dentro de nós. Tudo aquilo que recebe carga, importância e significado continuará produzindo efeitos até que seja compreendido.
Por isso, desiludir-se é uma graça.
Cada desilusão abre uma pequena fresta no véu que nos separa do Real. Todas as vezes que uma ilusão desmorona, somos trazidos novamente ao antigo terreno de lutas da realidade. Estamos aqui para aprender com as proposições da Vida, não para fugir delas. Temos recursos interiores que precisam ser despertados, e muitas vezes são justamente as experiências que mais rejeitamos que oferecem as condições necessárias para desenvolvê-los.
É curioso: pedimos para enxergar e reclamamos quando a venda é arrancada dos nossos olhos.
Queremos a verdade, desde que ela confirme aquilo em que já acreditávamos. Queremos despertar, mas sem abandonar os sonhos. Queremos liberdade, mas nos desesperamos quando alguém abre a porta da prisão.
Afinal, por que gostamos tanto da corda que nos enforca? Por que lutamos para permanecer entorpecidos? Que dificuldade é essa que temos em aceitar a realidade e viver a Vida como ela é, convivendo com as pessoas e aceitando-as como são? Que espécie de loucura nos faz defender justamente aquilo que nos aprisiona?
Talvez porque, durante muito tempo, nossas ilusões tenham sido nossos abrigos. E quando alguém ameaça derrubá-las, não enxergamos libertação — enxergamos perigo.
Mas um abrigo construído sobre uma mentira continua sendo uma prisão.
Enquanto não investigarmos as causas de nossas fraquezas, continuaremos caindo na mesma toca do coelho, como Alice, entrando cada vez mais fundo num mundo criado pela mente. O problema não é cair na toca. O problema é esquecer que estamos no País das Maravilhas e passar a chamá-lo de realidade.
Talvez seja por isso que a desilusão doa tanto.
Ela não destrói a nossa vida.
Destrói o mundo imaginário que construímos para fugir dela.
E quando finalmente o cenário desaba, quando os personagens perdem suas máscaras, quando aquilo que desejávamos deixa de interferir naquilo que realmente existe, ficamos novamente diante do que passamos tanto tempo tentando evitar:
a Realidade.
Não amaldiçoe esse momento.
Não queira reconstruir imediatamente aquilo que caiu.
Não corra em busca de uma nova ilusão para ocupar o lugar da antiga.
Olhe.
Talvez você esteja enxergando pela primeira vez.
Você acaba de ser libertado de uma mentira.
Transconhecimento
Reflexões & Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Compartilhe seu pensamento!
Deixe sua perspectiva