João 4:8 — "Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor."

Deus é amor. João alcançou uma compreensão extraordinária ao afirmar isso. Disse também que o Verbo era Deus e que nele estava a Vida. Se levarmos essas afirmações às últimas consequências, talvez estejamos diante de algo muito maior do que uma simples definição religiosa. Deus, amor, vida: tudo isso é uma coisa só.

Não existe a menor possibilidade de nos aproximarmos de uma compreensão mais profunda de Deus sem compreendermos o amor. Ora, se Deus está em tudo e Deus é amor, então o amor também está em tudo. O amor é tudo o que existe.

É justamente aqui que a minha mente encontra uma dificuldade quase intransponível.

Ela não consegue conceber essa totalidade porque opera dividindo a realidade: bem e mal, certo e errado, belo e feio, sagrado e profano. Se afirmarmos verdadeiramente que Deus é amor e que nada existe fora dele, teremos de reconsiderar até mesmo aquilo que chamamos de mal.

Não se trata de negar a dor, a crueldade ou o sofrimento. Eles existem enquanto acontecimentos da experiência humana. O que precisei investigar foi outra coisa: se o "mal", enquanto realidade separada e oposta a Deus, existe de fato ou se nasce do julgamento de uma mente incapaz de compreender o todo.

E foi diante disso que esbarrei no meu próprio limite.

Se existir um único canto onde Deus não esteja, Ele deixa de ser absoluto. Se houver algo no universo inteiramente destituído de amor, haverá algo fora de Deus. Mas, se nada pode existir fora dele, a conclusão é implacável: o mal que enxergamos não descreve a realidade em si, mas a forma mutilada como aprendemos a olhar para ela.

A vida, em seus movimentos naturais, acaba nos conduzindo a essa bifurcação. Ou continuamos defendendo um modelo de pensamento construído e transmitido ao longo de toda a nossa ancestralidade — sustentado pela divisão da realidade em opostos —, ou nos arriscamos diante de uma perspectiva radicalmente diferente: Deus é amor. E, se Ele preenche a existência, o verdadeiro desafio não é encontrar onde o amor se escondeu, mas entender por que ainda somos incapazes de reconhecê-lo no todo.

Guiados apenas pela mente analítica, viciada em padrões, classificações e conceitos, é impossível atravessar esse nó. A resposta encontra-se além do campo dos antagonismos. Quem olha para o que considera mal quase sempre se ancora em limites conceituais prévios para interpretar o fato, julgando Deus ausente e chancelando a tese do mal como algo autônomo. Mas aceitar a ausência de Deus em um único fragmento é decretar o fim de Sua absolutidade.

Deus é amor. E, se isso é verdade, o amor não é algo que se busca; é a essência de tudo o que há. O mal, a dor e a crueldade não são provas de Sua ausência, mas as arestas de uma realidade que nossa percepção, feita de cortes, não consegue abraçar por inteiro.

Diante disso, percebi que não há doutrina que baste. Resta apenas uma escolha silenciosa: continuar dividindo o mundo em sagrado e profano, ou permitir que a própria vida nos desminta, mostrando que até aquilo que rejeitamos carrega o traço do que chamamos de amor.

Não se trata de aceitar o sofrimento como bom, mas de não acrescentar a ele o veneno da separação. Trata-se de reconhecer que a ferida e o acolhimento, o caos e a ordem, o grito e o silêncio — todos eles respiram no mesmo corpo.

E, nesse reconhecimento, talvez a mente encontre sua paz não na resposta, mas na rendição. Porque, no fim, amar não é compreender. É estar.