O barulho é a linguagem dos homens; o silêncio, a linguagem de Deus.

Que espécie de Deus você acredita que irá encontrar no barulho? Com certeza, um Deus com características humanas: vingativo, combatente, vaidoso, orgulhoso, egoísta. Esse é o deus para o qual você tem se devotado — um deus feito à sua imagem e semelhança, com todos os seus defeitos amplificados e projetados no céu.

Enquanto Moisés subia ao silêncio do Monte Sinai para encontrar-se com o Eterno, os homens barulhentos, lá embaixo, construíam um bezerro de ouro para louvar. Esse bezerro não é uma relíquia antiga; ele está no seio da humanidade desde então e continua vivo hoje, mais dourado e reluzente do que nunca. Ele é o baluarte de muitas religiões, o ídolo silencioso que ocupa o altar sempre que o barulho substitui a escuta.

Poucas instituições religiosas ensinam a importância do silêncio, da contemplação, do mergulho interior, do autoconhecimento. Pelo contrário: uma parte expressiva delas adota a convicção pelo medo — em vez de recomendarem a meditação, oferecem púlpitos que incitam revolta, que inflamam a indignação contra inimigos quase sempre convenientes, e que preparam seus fiéis para uma luta vã e inconsequente contra aqueles que estão do lado de fora. Ao invés de pregarem o desapego e a renúncia, ensinam teologias da prosperidade financeira, pedem doações sem pudor e constrangem os seguidores com discursos carregados de emoção fabricada. O bezerro de ouro, hoje, tem nome de pastor, de apóstolo, de coach espiritual que promete vitória enquanto mantém você refém do próprio desejo.

Talvez seja mesmo necessário convivermos com modelos tão agressivos e grosseiros, porque ainda carregamos tanta agressividade em nosso Ser. Esses expedientes, talvez, apenas atendam às demandas de uma civilização que ainda dorme — e, para os que estão em estado de torpor, tapas sempre ajudam o despertar. Mas não confunda o tapa com o despertar. O tapa é apenas o começo; o despertar verdadeiro vem no silêncio que se segue.

O silêncio absoluto, onde Deus fez a morada, só será possível quando nos livrarmos da influência do mundo, quando nos desinteressarmos por nós mesmos, quando tirarmos toda a importância que damos às coisas e às pessoas com as quais convivemos, e quando nos rendermos. Rendermo-nos não é fraqueza — é a coragem de largar o controle, de soltar o leme e confiar que a correnteza não nos leva para o abismo, mas para o oceano. Para isso, é preciso ter Fé, mas uma fé viva, que se manifeste em uma nova perspectiva da realidade. É preciso sair do controle e jogar-se no vazio, como um pássaro corajoso em seu primeiro voo — acreditar na força e na coragem que já estão em nossa essência, esperando apenas que paremos de gritar para ouvi-las.

Jesus ensinou isso com clareza. Ele falou da importância do silêncio em nossa busca por Deus:

"E, quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois que apreciam orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem admirados pelos outros. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Tu, porém, quando orares, vai para o teu quarto e, após teres fechado a porta, orarás a teu Pai, que está em silêncio; e teu Pai, que vê em silêncio, te recompensará plenamente." (Mateus 6, 5-6)

Ora, por que gastamos tanta energia articulando o que queremos de Deus, se Ele é onisciente e sabe de todas as nossas necessidades? Por que tratamos esse mesmo Deus como um gênio da garrafa, pronto a realizar nossos caprichos? Cantamos, gritamos, repetimos orações mecânicas no alto dos púlpitos — tudo por desconhecermos Deus, por acreditarmos que estamos distantes dEle, por pensarmos num Deus Transcendente que precisa ser notificado a cada instante. Fazemos todo esse barulho para sermos notados. E, nesse processo, o Deus que deveria ser buscado em nossa essência acaba transformado no mesmo e velho bezerro de ouro — apenas com um verniz sagrado.

Os homens ainda acreditam no barulho. Gritam para que esse deus imaginário os escute. Acham impossível viver sem estar armados contra os próprios irmãos, sem lutar por conquistas territoriais, sem trincheiras ideológicas, sem crenças e tradições que os definam. Cavam buracos em busca de água em lugares errados e continuam sedentos. Desconhecem completamente a água viva que, uma vez tomada, jamais deixará alguém com sede.

Deus não os abandona — e nem poderia, pois está presente em cada um deles, como está presente em tudo. Ele é o verdadeiro mistério a ser desvendado, esperando que possamos remover o véu de ilusões para descobri-lo. E esse véu, na maioria das vezes, é feito do nosso próprio barulho.