Entender que Deus está cuidando de tudo talvez seja o verdadeiro significado da entrega. Entregar o corpo, a mente, as emoções, os medos, os desejos e, principalmente, essa necessidade incessante de controlar os acontecimentos. Confiar que existe uma Inteligência infinitamente maior conduzindo aquilo que nossa pequena visão não consegue compreender. Deus sabe exatamente o que fazer. Sua condução não depende daquilo que consideramos certo ou errado, conveniente ou inconveniente, porque aquilo que enxergamos é apenas um fragmento de uma realidade infinitamente maior. Como poderia o Supremo equivocar-se? Talvez aquilo que chamamos de erro seja apenas aquilo que ainda não conseguimos compreender.

Entregar-se, portanto, é confiar. E talvez nossa dificuldade em entregar revele justamente o tamanho da nossa fé. Dizemos acreditar em Deus, rezamos, pedimos orientação, procuramos sinais, mas continuamos querendo estabelecer o caminho, determinar os acontecimentos e escolher os resultados. Queremos que Deus conduza nossa vida, desde que siga o roteiro que escrevemos. Quando alguma coisa contraria nossos desejos, imediatamente desconfiamos da condução. Talvez ainda não tenhamos compreendido que entrega com condições não é entrega; é apenas outra maneira de tentar permanecer no controle.

Observe o próprio corpo. Enquanto estamos preocupados com aquilo que acontecerá amanhã, uma inteligência silenciosa continua trabalhando sem pedir nossa autorização. O coração pulsa, os pulmões respiram, a temperatura é regulada, uma ferida começa a cicatrizar, incontáveis processos acontecem simultaneamente sem qualquer participação consciente. Quando está calor, o corpo transpira; quando está frio, mobiliza mecanismos para preservar sua temperatura. Enquanto o personagem está ocupado tentando controlar a existência, a Vida continua acontecendo. Talvez o corpo esteja tentando nos ensinar alguma coisa há muito tempo: a Vida sabe viver.

Nossa dificuldade é confiar nessa Inteligência. Interferimos, resistimos, antecipamos, julgamos, tentamos obrigar a existência a seguir nossos projetos e depois nos desesperamos porque ela insiste em tomar caminhos que não estavam em nossos planos. Quando perceberemos que grande parte do nosso sofrimento nasce justamente dessa resistência? Quando entenderemos que não precisamos empurrar o rio para que ele chegue ao mar? Existe uma sabedoria profunda no não-agir, mas não devemos confundi-lo com passividade. Agir pelo não-agir é participar da Vida sem tentar aprisioná-la, fazer aquilo que precisa ser feito sem transformar nossa vontade numa ordem dirigida ao Universo.

Talvez seja esse também um dos ensinamentos mais profundos do carma. Não precisamos abandonar a ação; enquanto estivermos neste mundo, a ação acontecerá. O problema começa quando nos apropriamos dela, quando exigimos seus frutos e construímos nossa identidade a partir dos resultados. Fazemos alguma coisa e imediatamente esperamos recompensa, reconhecimento, segurança, sucesso. Queremos determinar não apenas nossa ação, mas também aquilo que o Universo deverá fazer com ela. A entrega começa justamente onde termina essa exigência: fazemos aquilo que nos cabe e devolvemos os frutos a Deus.

Realização espiritual significa permanecer Nele mesmo quando o mundo tenta novamente nos seduzir. Significa perder progressivamente o fascínio pelo personagem, pelo corpo como identidade, pelas promessas de Mamom e pelas inúmeras formas através das quais Maya nos convence de que alguma coisa lá fora poderá finalmente nos completar. Não significa abandonar o mundo, desprezar o corpo ou fugir da existência. Significa atravessar tudo isso sem esquecer quem somos. Podemos possuir coisas sem permitir que elas nos possuam; podemos participar do mundo sem entregar a ele nossa alma.

Maya não precisa nos aprisionar através do sofrimento. Muitas vezes nos aprisiona através do encantamento. Promete felicidade na próxima conquista, segurança na próxima acumulação, completude na próxima relação, reconhecimento na próxima vitória. E seguimos caminhando atrás dessas promessas como se alguma coisa no mundo pudesse oferecer ao personagem aquilo que ele acredita ter perdido. Quanto mais acreditamos nessa promessa, mais profundamente mergulhamos no sonho. Talvez despertar seja justamente perceber que aquilo que procuramos nunca esteve onde procurávamos.

Por isso é preciso morrer antes de morrer.

Não falo da morte do corpo, mas da morte daquele que acredita ser o dono da vida. Precisa morrer o personagem que exige garantias, que pretende controlar o caminho, que carrega o passado como identidade e constrói o futuro como promessa de realização. É essa morte simbólica que tantas tradições espirituais tentaram expressar de diferentes maneiras. Renunciar a si mesmo não significa destruir-se; significa deixar cair aquilo que durante tanto tempo confundimos conosco.

Talvez seja também esse o sentido profundo da fé. Jesus disse que, se tivéssemos fé como um grão de mostarda, poderíamos dizer a uma montanha que se movesse e ela se moveria. Não precisamos reduzir essa imagem a uma demonstração sobrenatural de poder. Existem montanhas enormes dentro de nós. O medo é uma delas. A necessidade de controle é outra. Nossas crenças, nossas certezas, nossos ressentimentos, nossa necessidade de saber antecipadamente o que acontecerá — tudo isso pode transformar-se em montanhas aparentemente intransponíveis. A fé não precisa convencer Deus a movê-las. Talvez seja justamente aquilo que permite que paremos de sustentá-las.

Mas entregar-se exige coragem. O personagem quer garantias antes de soltar. Quer saber onde cairá, quem o receberá, o que acontecerá depois. Quer primeiro conhecer o destino para somente então confiar no caminho. Essa é a contradição: se conhecêssemos antecipadamente aquilo que acontecerá, não precisaríamos de fé. Fé começa justamente onde nossas garantias terminam. Existe um momento em que precisamos abrir as mãos.

Enquanto tivermos medo do vazio, continuaremos agarrados às grades daquilo que conhecemos. Crenças, conceitos, identidades, posses e certezas podem transformar-se numa gaiola extremamente confortável. Sabemos que estamos presos, mas pelo menos conhecemos a prisão. O vazio nos assusta porque não oferece corrimãos. Não promete coisa alguma. Não explica o próximo passo. Talvez, porém, jamais descubramos que podemos voar enquanto continuarmos agarrados às grades.

A entrega absoluta é essa coragem de soltar. Não significa abandonar responsabilidades nem esperar passivamente que Deus faça aquilo que nos cabe. Significa agir e confiar. Caminhar e confiar. Fazer escolhas e confiar. Algumas portas se abrirão, outras permanecerão fechadas; algumas pessoas chegarão, outras partirão; algumas coisas acontecerão exatamente como desejamos, outras destruirão completamente nossos planos. Entrega significa permanecer em Deus também quando não compreendemos.

Talvez nossas orações revelem o quanto ainda queremos controlar. Pedimos a Deus que faça isso, impeça aquilo, traga determinada pessoa, afaste outra, abra uma porta, resolva um problema, realize um desejo. Não existe necessariamente algo errado em pedir; somos humanos e nossas necessidades também fazem parte de nossa relação com o Sagrado. Mas talvez exista uma oração ainda mais profunda, aquela que começa quando já não tentamos ensinar Deus a ser Deus: “Seja feita a Tua vontade.”

Essas palavras são assustadoras quando pronunciadas verdadeiramente. Porque já não estamos dizendo: “seja feita a Tua vontade, desde que coincida com a minha”. Estamos colocando no altar nossas expectativas, nossos projetos e até mesmo aquilo que acreditávamos ser indispensável à nossa felicidade. Entregar é aceitar que talvez Deus nos conduza justamente por caminhos que jamais escolheríamos. Muitas vezes aquilo que chamamos de perda pode ser uma porta; aquilo que chamamos de fracasso pode estar desmontando uma prisão; aquilo que chamamos de fim pode estar apenas encerrando alguma coisa à qual continuávamos agarrados.

A Bhagavad Gita também nos conduz a esse lugar. Arjuna quer compreender, hesita, teme e procura garantias diante daquilo que precisa enfrentar. Krishna não lhe promete um mundo moldado segundo seus desejos. Ensina-o a agir sem apego aos frutos, a permanecer interiormente estabelecido no Supremo e a atravessar o campo de batalha sem entregar sua paz aos resultados. No sexto capítulo, a imagem do yogi cuja mente se aquieta e encontra a felicidade suprema aponta novamente para essa direção: quando o pequeno eu deixa de ocupar o centro de tudo, alguma coisa muito maior pode finalmente ser percebida.

Talvez tenhamos passado a vida inteira acreditando que nossa segurança dependia da força com que conseguíamos segurar as coisas. Seguramos pessoas, dinheiro, posições, crenças, histórias, projetos e identidades. Seguramos até Deus, tentando transformá-lo em mais uma garantia contra aquilo que tememos. Mas o caminho espiritual parece apontar justamente na direção contrária. Não se trata de segurar melhor.

Trata-se de abrir as mãos.

Entregar o medo. Entregar o resultado. Entregar aquilo que passou e aquilo que ainda não chegou. Entregar até mesmo a imagem daquele que acreditamos ser. Continuar fazendo aquilo que precisa ser feito, continuar atravessando o mundo, continuar vivendo plenamente, mas com alguma coisa dentro de nós definitivamente rendida ao Mistério.

Talvez isso seja fé.

Talvez isso seja liberdade.

Talvez isso seja finalmente permitir que Deus seja Deus.