A vida não é um problema a ser enfrentado, mas uma realidade a ser experimentada. Ela se transforma em problema justamente porque estamos vivendo fora da Realidade. O Real é o único objetivo daqueles que vivem, não há outro. Realizar-se, no sentido que proponho aqui, é encontrar-se com o Real, nada mais. Real, Realidade, realizar-se, realização — tudo nos conduz à mesma questão: aquilo que é. Portanto, nosso verdadeiro objetivo é sair da ilusão.

Adormecidos que estamos, passamos a conhecer apenas uma realidade construída através dos sonhos. A realidade incomoda; o ideal consola. Por isso trocamos uma pela outra. Ao negar aquilo que é, refugiamo-nos num mundo imaginário, idealizado, cheio de metas a serem alcançadas, modelos a serem perseguidos e personagens que um dia pretendemos ser. Com isso, vamos nos desconectando completamente do Real.

Existe uma enorme diferença entre o Real e o ideal, embora os descuidados ainda não tenham percebido isso. O Real é aquilo que é; o ideal é apenas uma possibilidade. Criamos moldes imaginários para construir um personagem perfeito, que não sofre, que alcançou o sucesso, que é aceito, amado, admirado e finalmente feliz. Mas esse personagem nunca existiu, simplesmente porque está no futuro.

E o que é o futuro, agora? Nada. Absolutamente nada além de uma construção mental sobre aquilo que poderá acontecer.

Presos nesse campo de possibilidades, ficamos sujeitos a frustrações e decepções. Tornamo-nos escravos do desejo e permitimos que ele conduza nossa vida. Estamos sempre esperando alguma coisa, perseguindo alguma coisa, tentando chegar a algum lugar. A realização fica permanentemente adiada, colocada num ponto imaginário do futuro onde finalmente tudo será como gostaríamos.

A ansiedade que assola grande parte da humanidade encontra terreno fértil justamente nessa escolha: deixamos de viver na realidade para viver na ilusão criada por nossas idealizações. O presente passa a ser apenas uma ponte desagradável entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser.

O problema é que quase ninguém aceita a Vida como ela é, nem as pessoas como elas são. Existe em nós uma predisposição constante para querer mudar o cenário da existência. Criamos uma ideia de como as coisas deveriam funcionar e, quando a Natureza não obedece aos nossos planos, ficamos indignados. Esse é o maior ato de rebeldia cometido contra a Natureza: é como se disséssemos que Deus está errado e que tudo deveria ser diferente, ao nosso jeito, seguindo a cartilha dos nossos desejos. Dizemos, no fundo, que Ele não sabe o que é melhor para nós e que quem deve decidir, avaliar e escolher somos nós mesmos.

Ora, Deus não tá nem aí pra isso.

Ele não vai mudar a Natureza para agradar ninguém. O mundo segue princípios imutáveis, que não se curvam aos nossos caprichos. A chuva continuará caindo, o Sol continuará nascendo, as causas continuarão produzindo seus efeitos e a impermanência continuará destruindo tudo aquilo que insistimos em considerar permanente. Somos compelidos a despertar, e a Natureza sempre encontrará meios de nos lembrar disso.

O Real não está interessado naquilo que você gostaria que acontecesse. O Real é aquilo que acontece. O ideal pertence à mente, é uma ficção criada a partir do desejo. Todas as vezes que você abandona aquilo que é para refugiar-se naquilo que deveria ser, abandona a verdade para viver na ilusão.

Não existe acordo possível entre essas duas instâncias.

Ou você está no Real ou está na ilusão.

É impossível servir aos dois senhores.

Numa leitura simbólica, aqueles que se rebelam contra a ordem do Real representam os anjos caídos que não aceitaram as proposições da Vida e tentaram estabelecer outra ordem. Para esses, segundo a mitologia hebraica, restaram os reinos infernais. É exatamente isso que fazemos: rebelamo-nos contra o Real e depois chamamos de sofrimento as consequências da nossa própria rebelião.

Não existe a menor possibilidade de realizar-se enquanto estivermos imersos num mundo de ilusões, idealizado por demandas infantis que apenas confirmam nosso atraso. Não podemos encontrar o Real enquanto exigimos que ele se transforme no ideal.

O sofrimento começa quando você olha para aquilo que é e diz: deveria ser diferente.

A Vida apresenta uma coisa; queremos outra. A pessoa é de um jeito; queremos que seja de outro. O acontecimento ocorreu; gostaríamos que não tivesse ocorrido. O presente é este; queremos aquele. Passamos a existência inteira tentando fazer com que a Realidade peça desculpas por não corresponder às nossas expectativas.

Deus não consulta seus projetos.

A Natureza não lê sua lista de desejos.

O Real não negocia.

A Vida não precisa corresponder às suas expectativas.

Aquilo que é não tem obrigação alguma de ser aquilo que você gostaria que fosse.

Se você pensa que pode mudar essa dinâmica, está enganado e se enganando. Não entendeu nada ainda. Só existe uma saída dessa condição de sofrimento, desse campo de choro e ranger de dentes: a porta da aceitação. Ou você aceita, aprende, cresce e para de lutar contra as proposições da Vida, ou continuará sofrendo.

Aceitação, aqui, não precisa de muitas explicações. É simplesmente abandonar a pretensão de substituir aquilo que é por aquilo que você gostaria que fosse. É deixar o ideal cair para que o Real finalmente possa ser visto.

Passamos a vida inteira querendo corrigir a Vida. Queremos corrigir as pessoas, as circunstâncias, o passado, o presente, a Natureza, o destino e até Deus. Criamos um modelo mental de como tudo deveria ser e depois sofremos porque a Realidade se recusa a obedecê-lo.

Esse é o nosso problema.

O Real não está errado.

Errado está o modelo que construímos para substituí-lo.

Está na hora de levantar esse véu ilusório criado pelos desejos, crescer, enfrentar as próprias limitações, observar os pensamentos, investigar a lógica por trás das experiências que estamos vivendo e parar de brigar com a Vida. Pare de exigir que ela se curve às suas fantasias. Pare de querer ensinar Deus a administrar o Universo. Pare de chamar de erro tudo aquilo que simplesmente não corresponde ao que você esperava.

A verdade não precisa ajustar-se a você.

Você precisa ajustar-se à verdade.

Talvez, então, tenhamos compreendido errado aquele velho ditado durante todo esse tempo.

Deus não escreve certo por linhas tortas.

Ele escreve certo por linhas certas.

É a sua visão que ainda é torta.