Se você espera alguma recompensa por ser uma pessoa boa, é porque você não é uma pessoa boa. Pessoas boas não fazem o bem esperando recompensas, não se interessam por holofotes nem buscam qualquer reverência através de seus atos. Agem de acordo com o que são.

Pessoas assim compreendem que a Vida já é uma dádiva, pois a entendem eterna, perfeita e plena de êxtase. Por isso, existem aqueles que são vitoriosos por realizarem os seus desejos e aqueles que são realizados por não desejarem nada.

Se você quer ser recompensado por suas ações e trata como ingratos aqueles que não expressam a devoção, a admiração ou o respeito desejados, é porque ainda é uma pessoa carente, vazia e cheia de demandas internas. Você precisa ser preenchido, precisa de recompensas constantes, necessita de afeto ou, melhor, precisa ser afetado para sentir-se vivo, pois desconhece a Vida Plena que alimenta a própria Consciência. Sem perceber, age como se fosse um cadáver ambulante, um verdadeiro zumbi em busca de algo que possa nutri-lo.

Aqueles que ajudam é que deveriam agradecer, pois estão diante de oportunidades de crescimento. Serão sempre eles os maiores privilegiados, porque aquele que dá verdadeiramente já recebeu no próprio ato de não precisar reter.

Uma ação desinteressada nos privilegia principalmente pelo exercício do desapego. Sem nos desapegarmos deste mundo, torna-se impossível transcendê-lo, e isso é algo óbvio: estaremos eternamente presos àquilo que valorizarmos e do qual dependermos.

É comum ouvirmos que o elogio é um bem para a alma. Mentira! O elogio só faz bem ao ego; é um entorpecente danoso que ajuda o elogiado a inflar-se e a sentir-se cada vez mais identificado com esse falso eu. Sentir-se importante, querido, admirado etc. é não perceber que está dormindo. Livre-se dessas necessidades infantis e acorde para a Vida, a Verdadeira Vida.

Jesus nos ensinou que a mão esquerda não deve saber o que faz a direita. Só essa máxima já seria suficiente para expor esse conceito. Por que não seguimos essa trilha? O Karma Yoga ensinado por Krishna a Arjuna nos conduz à mesma direção: a ação desinteressada, a ação sem apego aos seus frutos.

Não seguimos por esse caminho em razão da cegueira provocada por todas essas cortinas ilusórias que nos impedem de enxergar uma simples Verdade: não há o que melhorar, evoluir, conquistar ou desenvolver em nós mesmos; precisamos apenas nos livrar daquilo que nos prende à identificação com o personagem. Para ser tudo, para ganhar tudo, temos que perder tudo, principalmente esse estado de entorpecimento e apego.

É preciso perder o apreço que temos pelas nossas certezas, o apego aos bens materiais, aos desejos doentios e até mesmo às pessoas; deixar de acreditar na falta, na carência, na necessidade de preenchimento e na valorização externa. Tudo isso só nos oferece uma vida de frustração e decepção. Colocamos, o tempo todo, a responsabilidade pelo nosso bem-estar nas costas dos outros, esperando que correspondam às nossas expectativas.

Estamos aqui apenas para abrir as portas. Se os convidados vão nos cumprimentar ou nos agredir ao adentrarem nossas vidas, tanto faz. Não estamos aqui pelos convidados, estamos aqui por nós mesmos. Abrimos a porta porque abrir a porta é o que somos, não para controlar quem entrará por ela.