Sua indignação, sua revolta ou sua sede de justiça — por mais legítimas que sejam — jamais poderão, por si sós, atender às suas demandas internas mais profundas. Esses sentimentos compartilham uma mesma raiz emocional: o ódio, ainda que muitas vezes disfarçado de virtude. Conduzido por ele, você não terá sucesso duradouro. É o mesmo que tentar limpar a casa usando carvão.
As lutas e os movimentos sociais, embora frequentemente necessários e justos, carregam consigo esse mesmo risco. Não importa a natureza das reivindicações; elas podem ser plausíveis e urgentes, mas isso não as torna imunes à contaminação pela indignação, pela revolta — por sentimentos que trazem o ódio em sua essência. A história está repleta de revoluções que, ao vencerem, reproduziram exatamente a opressão que combatiam, porque usaram as mesmas ferramentas do opressor.
As lutas colocam os homens atrás de trincheiras ideológicas e os tornam inimigos. Os conflitos, as guerras e todas as contendas entre os povos foram alimentados pelo sentimento de hostilidade. Até mesmo aqueles que lutam pela paz devem perguntar-se o que os mobiliza: se é o amor à paz ou a raiva contra aqueles que a violam. A paz não deve ser apenas o fim; deve ser também o meio. Quando estamos verdadeiramente em paz, a luta perde a urgência — embora a ação justa permaneça possível.
O ódio não traz benefícios duradouros; apenas gera conflitos e divisões. Uma sociedade dividida é uma sociedade enfraquecida. A verdadeira revolução acontece silenciosamente, dentro de cada ser humano, no cultivo da capacidade de amar. O ódio é um péssimo conselheiro e deixa um rastro difícil de ser apagado.
Buda ensinava que jamais, neste mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor. Ele disse uma grande verdade — mas nem sempre a verdade pode ser suportada por aqueles que ainda se debatem na ilusão.
A humanidade traz uma inclinação para a luta; foi adestrada para isso. Aprende, desde cedo, a se defender, considerando o outro uma ameaça, tratando o mundo como um território hostil, o sistema como inimigo. Poucos são instruídos a amar, compreender, aceitar, perdoar e resolver contendas através da renúncia e do desapego. Isso está fora do padrão — o que não deixa de ser compreensível, uma vez que uma ínfima parte da humanidade conhece verdadeiramente o poder do amor.
O amor é extremamente poderoso porque expressa a luz da realidade. Retira o homem da ilusão criada pelo ódio e harmoniza aquilo que o conflito separou. O amor cura, purifica, equilibra, resolve e dissolve os construtos ilusórios que sustentam nossas contendas.
Coloque o amor sobre a mesa diante de qualquer conflito ou disputa e observe o que acontece. Onde ele verdadeiramente se manifesta, o ódio perde sua sustentação, porque ambos não podem ocupar o mesmo espaço. Não se trata de ingenuidade ou passividade; trata-se de uma força ativa que desarma o inimigo sem precisar destruí-lo.
O amor manifesta-se de diferentes maneiras e possui recursos para responder às mais diversas situações. Aquele que foi ofendido pode encontrá-lo na forma do perdão; aquele que sofre uma perda pode encontrá-lo na aceitação; aquele que deseja libertar-se das angústias pode encontrá-lo na compreensão. Aquele que presencia a injustiça pode encontrá-lo na resistência não-violenta — como Gandhi demonstrou através da ahimsa: não responder ao ódio com ódio, à violência com violência, sem que isso significasse aceitar passivamente a opressão. A paz não estava apenas no resultado que buscava; estava também no instrumento utilizado para alcançá-lo.
Os atributos do amor são numerosos e se desenvolvem em nós à medida que cultivamos nossas virtudes. Humildade, confiança, alegria, coragem, perseverança, serenidade, renúncia — são algumas de suas manifestações. Através do amor, aprendemos a nos desinteressar, soltar, liberar, aceitar e não nos ofender com tudo aquilo que contraria nossas expectativas. Não se trata de fraqueza ou submissão. Há uma força extraordinária naquele que consegue agir sem permitir que o ódio determine suas ações.
Não podemos construir a paz utilizando os mesmos elementos que produzem a guerra. Não podemos pretender eliminar o ódio odiando aqueles que odeiam. Não podemos superar a divisão criando novas trincheiras. Seria novamente tentar limpar a casa usando carvão.
A verdadeira revolução começa dentro de nós. Ela não anula a luta externa — mas a transforma, purifica-a, impede que ela se torne aquilo que combate.
O amor é o que nos torna poderosos.
Transconhecimento
Reflexões & Comentários (1)
Muito enriquecedor. Precisamos cultivar o amor.
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