Existe uma grande verdade na lógica universal, um princípio ainda pouco compreendido — algo que pode ser profundamente libertador quando assimilado. Para o Universo, o acontecimento é secundário; o que realmente importa é o que acontece em você diante dele.
Aquilo que ocorre pertence ao campo das informações de um mundo impermanente. Surge, permanece por algum tempo e desaparece. Por mais que nosso nível de compreensão ainda não tenha alcançado esse entendimento, tudo aquilo que chamamos experiência passa pela mente e é nela processado. Talvez aquele velho princípio hermético — “o Universo é Mental” — seja muito mais profundo do que imaginamos.
Está cada vez mais claro para mim que os eventos da existência cumprem uma função de lapidação da consciência humana. Existe uma inteligência nesse processo, fazendo ressonância justamente com aquilo que precisa ser revelado, resolvido ou desenvolvido em nós. Cada ser humano vive experiências distintas que acionam diferentes aspectos de si mesmo, o que indica a existência de leis e forças da Natureza atuando sobre o indivíduo com propósitos que precisam ser investigados.
A experiência, muitas vezes, não coloca nada de novo em você; apenas revela aquilo que já estava lá. Uma humilhação pode revelar o orgulho; uma perda, o apego; uma rejeição, a dependência; uma ameaça, o medo. Se uma opinião contrária é capaz de despertar uma fúria desproporcional, talvez ela apenas tenha tocado numa identificação que já existia. A experiência encontra a rachadura, expõe aquilo que estava oculto e nos coloca diante de nós mesmos.
Estou convencido de que existe uma direção nesse processo: conduzir-nos à luz. Estamos imersos num abismo de ignorância, presos em enredos mentais, seguindo padrões, conceitos e regras produzidos por um sistema de crenças e, portanto, ainda distantes da Realidade absoluta.
Os desafios impostos pela experiência no corpo são inúmeros e, para atravessá-los, teremos que desenvolver poderes que não podem ser comprados, emprestados ou encontrados no mundo exterior. Esses poderes são as virtudes que precisamos manifestar: coragem, serenidade, humildade, desapego, compaixão, perseverança, confiança, equanimidade.
Digo “manifestar” porque, em essência, somos perfeitos e virtuosos — apenas ainda não temos consciência disso. Essas virtudes se desnudam através do trânsito da existência, ou das existências. Evoluir, portanto, não significa tornar-se perfeito, mas retirar aquilo que impede a perfeição essencial de se manifestar.
Passar por dificuldades financeiras, frustrações amorosas, perdas de toda espécie, acidentes, problemas de saúde — seja o que for — não importa em nada para o Universo o acontecimento em si. O que está em jogo é aquilo que o acontecimento consegue despertar, revelar ou desenvolver em você.
Se, por falta de recursos emocionais, intelectuais ou conscienciais, você está sendo profundamente impactado por determinadas experiências, isso significa que existem pontos vulneráveis que precisam ser conhecidos e superados — e talvez somente através da própria experiência isso seja possível. O mundo como concebemos é um grande laboratório da consciência.
Você não veio aqui para ficar rico, divertir-se ou realizar-se no mundo. Nada disso. Você pode ficar rico, pode divertir-se, amar, construir, criar e conquistar coisas extraordinárias, mas não confunda o cenário com o propósito. Tudo isso faz parte do filme, mas os olhos do Universo estão voltados para o espectador, não para os enredos fictícios apresentados.
Esse talvez seja um dos nossos grandes equívocos: apaixonamo-nos pelo filme e esquecemos que estamos aqui para despertar. Queremos mudar o roteiro, retirar determinados personagens, prolongar as cenas agradáveis, apagar as desagradáveis e discutir com o diretor porque o filme insiste em não obedecer às nossas expectativas.
Pare de problematizar. Olhe para aquilo que acontece como algo necessário ao seu desenvolvimento. Não desperdice a experiência perguntando apenas: “Por que isso está acontecendo comigo?”. Faça uma pergunta muito mais importante: “O que isso está revelando em mim?”
Veja: toda graduação acontece mediante provas. Com a Vida não é diferente. A diferença é que a Vida, esse Grande Professor, muitas vezes aplica a prova primeiro e espera que descubramos a matéria depois. E enquanto a lição não for compreendida, continuaremos encontrando a mesma matéria sob outras aparências. Mudam os personagens, muda o cenário, muda o problema, mas alguma coisa estranhamente familiar continua acontecendo.
E perguntamos, indignados: “De novo?”
Sim, de novo.
Talvez porque você ainda esteja olhando para a prova e não para aquilo que ela pretende revelar.
Aqueles que recusam sistematicamente as proposições da Vida são como alunos que cabulam as aulas e depois protestam contra o professor porque foram reprovados. Querem avançar sem aprender, querem outra prova, outro professor, outra escola — qualquer coisa, menos olhar para aquilo que ainda não conseguiram desenvolver em si mesmos.
Mas a Vida é paciente. Muda o quadro, troca os personagens, reorganiza o cenário e apresenta novamente a lição.
Você quer continuar reprovando? Imagino que não. Portanto, aceite o que vier e encare a experiência como algo que não poderá destruir aquilo que você é em essência, mas que poderá revelar exatamente onde ainda estão suas vulnerabilidades. Não pergunte apenas como se livrar do problema; procure descobrir o que o problema veio buscar em você.
Talvez coragem, humildade, desapego, confiança. Talvez alguma força que permaneceria adormecida durante toda a sua existência se a Vida não tivesse provocado justamente aquela rachadura.
A prova pode ser dura, o professor pode parecer impiedoso e o roteiro, absurdo. Mas não se distraia com o cenário.
Nunca foi sobre a prova. Sempre foi sobre você.
Transconhecimento
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