Há muitas maneiras de evitar o incômodo provocado pelas recordações de acontecimentos desagradáveis. Ninguém quer se lembrar de uma traição sofrida, de uma demissão inesperada que abalou a autoestima, dos maus-tratos da infância, da humilhação diante de um grupo de amigos, do abandono daquela pessoa amada ou de qualquer outra experiência que tenha deixado marcas profundas. Preferimos esquecer. E, quando não conseguimos esquecer, aprendemos a desviar os olhos.

A mente é extraordinariamente habilidosa nesse trabalho. Diante daquilo que ameaça nossa segurança emocional, criamos defesas, justificativas, distrações, idealizações e toda espécie de mecanismos capazes de afastar o desconforto. Construímos ambientes internos onde seja possível continuar vivendo sem tocar diretamente na ferida. Aos poucos, passamos a habitar uma realidade mental feita não apenas daquilo que aconteceu, mas principalmente daquilo que precisamos acreditar para continuar protegendo a imagem que construímos de nós mesmos.

Viver exclusivamente dentro dessa realidade mental significa, em grande medida, fugir de si mesmo. Criamos verdadeiras psicosferas de conforto, selecionamos pessoas, situações, ideias e até crenças que confirmem aquilo que desejamos pensar sobre nós e sobre o mundo. Negamos o que incomoda, afastamos aquilo que ameaça nossas certezas e chamamos esse pequeno território protegido de felicidade. O problema é que aquilo que foi negado não desaparece simplesmente porque deixamos de olhar para ele.

É como esconder algo podre dentro de uma mochila e passar perfume no corpo para não sentir o cheiro. Podemos trocar de roupa, mudar de cidade, de relacionamento, de emprego, de religião, construir novas amizades e inventar novos personagens, mas continuaremos carregando a mochila. Aquilo que não foi enfrentado permanece conosco, muitas vezes interferindo silenciosamente em nossas escolhas, afetos, medos e relacionamentos. Em determinadas circunstâncias, o próprio corpo também pode tornar-se um dos leitos por onde esse sofrimento encontra passagem. O que enterramos não está necessariamente morto.

Talvez uma das maiores dificuldades humanas esteja justamente aí: tornamo-nos especialistas em fugir de nós mesmos. Não necessariamente por escolha consciente, mas porque nem sempre possuímos os recursos emocionais necessários para olhar diretamente para determinadas feridas. O problema começa quando transformamos essa fuga em modo de vida. Passamos então a organizar o mundo para que ele não toque em nossas vulnerabilidades. Queremos pessoas que não nos contrariem, relações que não nos desafiem, circunstâncias que não nos desestabilizem e uma existência inteira construída para preservar aquilo que chamamos de “eu”.

Mas a vida não parece interessada em colaborar com esse projeto.

Sempre haverá alguém difícil no caminho. Sempre haverá alguma perda, alguma frustração, alguma contrariedade, alguma situação capaz de tocar exatamente naquele ponto que desejávamos manter escondido. E talvez seja justamente aí que exista uma oportunidade extraordinária: aquilo que chamamos de inimigo pode ser apenas a forma assumida pela vida para nos colocar diante daquilo que ainda não conseguimos olhar.

Não se trata, portanto, de acreditar ingenuamente que o Universo distribui sofrimentos como um professor que prepara exercícios para seus alunos. Trata-se de perceber algo muito mais imediato: cada acontecimento que nos desestabiliza revela alguma coisa sobre nós. A humilhação encontra um ego que necessita de reconhecimento; a rejeição encontra uma identidade que deseja ser escolhida; a perda encontra aquilo que havíamos declarado nosso; a ofensa encontra alguma imagem de nós mesmos que julgamos necessário defender. O mundo toca a ferida, mas não foi necessariamente o mundo que a criou.

É nesse sentido que a sombra, na psicologia de Carl Gustav Jung, se torna tão importante. Aquilo que recusamos reconhecer em nós não deixa de existir. Continua atuando subterraneamente e frequentemente retorna através das projeções, dos conflitos repetitivos, das aversões desproporcionais e das situações que parecem nos perseguir. Mudam os personagens, mudam os cenários, mudam as épocas, mas o mesmo drama reaparece. Corremos do inimigo e estranhamos encontrá-lo novamente alguns quilômetros adiante.

Por isso, ambicionar um paraíso na Terra ou buscar apenas o convívio com pessoas agradáveis, que confirmem nossas expectativas e se ajustem confortavelmente à nossa mediocridade, é um erro. O Nazareno já havia percebido a pobreza espiritual dessa lógica quando perguntou:

“Que mérito vocês terão se amarem aos que os amam? Até os pecadores amam aos que os amam. E que mérito terão se fizerem o bem àqueles que são bons para com vocês? Até os pecadores agem assim. E que mérito terão se emprestarem a pessoas de quem esperam devolução? Até os pecadores emprestam a pecadores, esperando receber devolução integral.”

A provocação é muito maior do que parece. Amar apenas aquilo que nos agrada não exige transcendência alguma. Conviver somente com quem confirma nosso personagem também não. Ser gentil quando somos elogiados, serenos quando tudo acontece conforme nossos desejos e generosos quando nada ameaça nossos interesses não demonstra grande conquista interior. Até o ego consegue fazer isso.

O verdadeiro confronto começa quando a realidade deixa de obedecer.

É justamente aí que descobrimos a consistência daquilo que imaginávamos possuir. Falamos em humildade até sermos humilhados; falamos em desapego até perdermos alguma coisa; falamos em serenidade até sermos contrariados; falamos em confiança até o chão desaparecer debaixo dos nossos pés; falamos em amor até encontrarmos alguém que não corresponda às nossas expectativas. Enquanto as circunstâncias nos favorecem, qualquer virtude parece sólida. A adversidade é que revela se ela realmente existe.

Pois é, meus amigos, passamos grande parte da existência fazendo exatamente o contrário. Seguimos uma cartilha medrosa ditada pelos mecanismos mais primitivos da mente, buscando segurança, reconhecimento, prazer e aprovação. Organizamos nossa existência em torno de anestesias sofisticadas e ainda chamamos isso de liberdade. Tornamo-nos escravos das próprias exigências psicológicas e, paradoxalmente, acreditamos estar no controle.

O caminho interior começa quando essa fuga termina.

Tudo aquilo que foi negado, reprimido, projetado ou escondido precisa, em algum momento, ser visto. Não para que nos tornemos pessoas melhores no sentido convencional da palavra, tampouco para aperfeiçoarmos aquilo que somos em essência. O Ser não precisa ser aperfeiçoado. O que precisa cair são as camadas de condicionamentos, identificações, medos e ilusões que nos fazem confundir o personagem com aquilo que realmente somos.

É por isso que as antigas mitologias continuam falando conosco. Cada homem terá diante de si sua própria saga. Encontrará dragões, monstros, labirintos, Medusas e Minotauros. Não porque essas criaturas existam em algum território fantástico, mas porque representam forças que habitam os subterrâneos da própria consciência. O labirinto está dentro de nós. O Minotauro também.

Queremos o tesouro, mas não queremos encontrar o dragão. Queremos consciência sem sombra, serenidade sem angústia, liberdade sem renúncia, desapego sem perda, iluminação sem atravessar a morte psicológica daquele personagem que passamos uma vida inteira tentando preservar.

Não funciona assim.

O dragão guarda justamente aquilo que procuramos.

Por isso, fugir dele significa fugir do próprio tesouro. Aquilo que nos assusta, nos irrita, nos desorganiza ou nos faz sofrer pode revelar a prisão psicológica que ainda carregamos. Não precisamos cultuar o sofrimento nem procurá-lo artificialmente. A vida já se encarrega de apresentar circunstâncias suficientes para mostrar onde ainda estamos presos.

A grande batalha, portanto, nunca foi contra o mundo. Também não se trata de destruir a sombra, como se pudéssemos arrancar de nós tudo aquilo que julgamos indesejável. Trata-se de reconhecê-la, atravessá-la e retirar dela o poder de governar silenciosamente nossa existência.

No fim, talvez descubramos algo ainda mais desconcertante: não enfrentamos nossos dragões para aperfeiçoar o Ser. O Ser jamais esteve em perigo e nunca precisou tornar-se alguma coisa. Enfrentamos nossos dragões para deixar de confundir aquilo que somos com aquilo que construímos para sobreviver.

O herói não atravessa o labirinto para tornar-se outro.

Atravessa-o para descobrir quem nunca deixou de ser.