Precisamos colocar as coisas em seus devidos lugares.
Tenho ouvido aos quatro cantos a afirmação de que "você pode criar a sua realidade". Essa frase nasce de uma confusão profunda. Podemos transformar circunstâncias, fazer escolhas e alterar o curso dos acontecimentos, mas ninguém cria a realidade. A realidade simplesmente é. Ela antecede o pensamento, independe da vontade humana e permanece intocada por qualquer projeção da mente.
O problema é que a mente jamais entra em contato direto com a realidade. Ela apenas a interpreta. Entre aquilo que é e aquilo que percebemos interpõe-se uma trama de memórias, desejos, medos, crenças e conceitos. Assim, deixamos de habitar a realidade para viver em um mundo de interpretações. Pulamos de galho em galho, surfando em possibilidades imaginárias, construindo cenários evanescentes que não se sustentam. Depois, erguemos teorias para explicar a realidade, quando, na verdade, apenas descrevemos o conteúdo da própria mente.
A realidade, em seu sentido mais profundo, é o estado original do Ser: pleno, indivisível, sem conflitos, sem carências, onde a paz reina e a luz da consciência habita. Ela não pode ser aperfeiçoada nem moldada segundo os caprichos humanos. Toda tentativa de fazê-lo parte da ilusão de que somos seres incompletos e de que a felicidade depende da construção de uma condição futura.
Quem dissemina essa ideia convence as pessoas de que precisam tornar-se algo diferente do que já são. Faz acreditar que a plenitude será alcançada depois de uma longa caminhada de aperfeiçoamento. Mas quem poderá aperfeiçoar aquilo que, em sua essência, já é pleno?
A ideia de felicidade popularmente difundida é grosseira. Tentam nos convencer de que precisamos empreender batalhas interiores para conquistá-la, como se a vida fosse um campo de guerra permanente. Ora, a vida nunca foi uma batalha. A batalha existe apenas na mente que rejeita o presente e projeta uma condição imaginária onde acredita que finalmente encontrará paz.
Não adianta seguir cartilhas rígidas de reforma íntima, combatendo tendências negativas e inclinações consideradas ruins para tornar-se realizado. O caminho nunca foi esse. A realização acontece no reencontro com a nossa verdadeira natureza, onde tudo já está completo, porque o estado original é divino.
É como imaginar a água esforçando-se para tornar-se líquida. Não faz o menor sentido. Ela não precisa conquistar aquilo que já é. Da mesma forma, não precisamos nos tornar a Vida; precisamos apenas reconhecer que jamais deixamos de sê-la.
Imagine alguém que queira tornar-se menos orgulhoso porque aprendeu que deve combater esse vício da mente. O que faz? Entra numa vigília exaustiva contra si mesmo. Observa cada pensamento, condena cada manifestação do orgulho e trava uma guerra silenciosa no próprio interior.
E o resultado?
Nada.
O foco permanece na ausência, na escuridão, naquilo que pretende eliminar. Toda luta mantém vivo o objeto da própria luta. Enquanto o orgulho ocupa o centro da atenção, continua sendo alimentado.
A solução nunca esteve no combate, mas na direção do olhar. Em vez de combater o orgulho, cultive a humildade. Quando a humildade floresce, o orgulho se desfaz naturalmente. Afinal, não há escuridão que resista à luz.
A vida nunca foi sobre melhorar alguma coisa, alcançar estados especiais ou acumular conquistas. Tudo isso pertence ao universo das ilusões construídas pelo pensamento. A vida é um movimento de desconstrução: soltar, desapegar, desaprender. Não se trata de acrescentar algo ao ser, mas de retirar tudo aquilo que encobre o que sempre esteve presente.
A realidade já pulsa no interior de cada um de nós em todo o seu esplendor, porque a própria Realidade é Deus manifestando-se como Vida. Ninguém possui vida como quem possui um objeto; todos nós somos a própria Vida. Essa distinção muda tudo.
Toda ânsia por alcançar alguma coisa revela apenas um estágio de ignorância, no qual nos comportamos como um peixe mergulhado no oceano procurando o próprio oceano.
A mente é um instrumento precioso para lidar com o mundo das formas, mas torna-se um tirano quando passa a definir quem somos. Transcender essa condição exige desapego e renúncia — não ao mundo, mas à identificação com tudo aquilo que é transitório. O problema nunca foi viver no mundo; o problema foi acreditar que somos apenas aquilo que nele acontece.
Quando essa identificação cessa, não encontramos uma nova realidade.
Percebemos aquela que sempre esteve aqui.
Porque a realidade simplesmente é.
Transconhecimento
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