Quem é você? Já se fez essa pergunta? Sim, porque quase todo mundo se esquece de si mesmo e passa a vida querendo identificar-se com um personagem ideal, aquele que é apenas uma possibilidade, alguém que considera estar à altura de representá-lo neste mundo.
Não percebe que esse “eu virtual” viverá eternamente no terreno da hipótese, da possibilidade, do amanhã. É o nosso Castelo. Como K., personagem de O Castelo, de Franz Kafka, passamos a vida tentando alcançar algo que permanece inacessível. O agrimensor busca entrar no Castelo; nós buscamos entrar nesse personagem ideal que criamos para nós mesmos. E, enquanto perseguimos aquilo que está sempre adiante, deixamos de viver na paz do vilarejo, que é a nossa realidade. O Castelo está sempre lá. O vilarejo está aqui.
Precisamos mudar a direção de nossas buscas. Estamos dentro de um encantamento, completamente hipnotizados por modelos e ideais de felicidade que surgem de todos os lados. Andamos como o cavalo que tenta alcançar a cenoura amarrada à sua frente: ansiosos, preocupados, famintos de coisas que nunca nos satisfazem. Estamos na contramão da estrada e, no fundo, sabemos onde esse caminho irá nos levar.
Vivemos atrás de graduações, diplomas e certificações que nos tornem melhores; queremos dinheiro e poder para satisfazer desejos capazes de entorpecer a angústia de sermos quem somos. Acreditamos que precisamos estar envernizados e lustrados para vivermos dignamente. Todo esse esforço surge de uma constatação dolorosa: não nos aprovamos. Não nos aceitamos.
Não há nada de errado em aprender, crescer ou conquistar. O erro começa quando esperamos que essas conquistas nos tornem dignos de nós mesmos. Não podemos viver eternamente de expectativas. A vida é um rio que corre no presente, diante dos nossos olhos, enquanto permanecemos olhando para algum ponto distante, esperando finalmente chegar a nós mesmos.
É preciso tornar-se o que somos.
Mas tornar-se quem somos não significa construir alguma coisa que ainda não existe. Significa remover aquilo que nunca fomos.
O mundo nos ensina a adicionar: diplomas, dinheiro, prestígio, reconhecimento, poder, identidade, aparência. Acrescentamos camada sobre camada, personagem sobre personagem, até não sabermos mais quem está escondido debaixo de tudo aquilo.
Talvez o caminho seja exatamente o contrário.
Retirar.
Não percebemos que aquilo que procuramos já está em nós. Queremos preencher com coisas aquilo que só pode ser reconhecido pela consciência. Chegará o momento em que teremos de nos esvaziar, pois nossos copos estão cheios — cheios de ideias sobre quem deveríamos ser.
Não perca tempo perguntando como fazer o caminho de volta para casa. Você nunca saiu dela. Apenas remova aquilo que não é você, os ornamentos que acumulou dentro de si durante tantos anos. Cuidado com os guias autointitulados, com aqueles que conhecem o seu caminho melhor do que você, com os vendedores de atalhos e fórmulas para a felicidade. Não seja mais um rato seguindo o Flautista de Hamelin. Ouça a própria intuição, ouça a voz do coração. Tudo aquilo que você precisa ser, você já é. Acabe com essa sofreguidão.
Mas também não caia na armadilha oposta: negar este mundo em nome de um suposto mundo verdadeiro, espiritual, superior. Nietzsche denunciou justamente essa desvalorização da vida concreta em favor de uma realidade inventada.
Talvez façamos exatamente a mesma coisa conosco.
Inventamos um “eu verdadeiro” em algum lugar do futuro e passamos a desprezar aquele que existe agora. Criamos nosso próprio mundo ideal, nosso próprio Castelo, nossa própria promessa de salvação.
Não aqui.
Não agora.
Não assim.
Sempre depois.
Somos muito mais do que imaginamos, mas só existe o aqui e o agora. É preciso assumir nossa condição humana e parar de esperar por uma versão futura de nós mesmos que finalmente mereça viver.
Chega de esperança.
Como já disse em outros artigos, esperança é um palavrão. Quando transformada em modo de vida, ela é apenas uma maneira elegante de rejeitar o presente. Esperamos pelo dinheiro, pelo reconhecimento, pelo amor, pela iluminação, pelas condições ideais, pelo momento certo. Esperamos tanto pela vida que acabamos não percebendo que ela já começou.
Ninguém terá o poder de nos trazer a felicidade. Coisa alguma poderá preencher aquilo que já está preenchido. Está na hora de assumir essa responsabilidade e parar de olhar tanto para fora.
Nietzsche disse: “Torna-te quem tu és.”
Talvez toda a nossa tragédia esteja em não compreender essa frase.
Tornar-se quem somos não significa acrescentar alguma coisa a nós mesmos.
Significa retirar.
Retirar o personagem.
Retirar o ideal.
Retirar a expectativa.
Retirar tudo aquilo que aprendemos que deveríamos ser.
Até que reste aquilo que nunca deixou de estar ali.
Você.
Transconhecimento
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