Só existe uma coisa que está além do bem e do mal: o amor. O amor não está do lado do bem nem está ao lado do mal. Ele está ao lado dos dois. O bem quis sequestrar o amor para si, ter exclusividade; com isso, o amor deixou de ser reconhecido no outro lado, como se estivesse ausente, como se deixasse de existir, mas isso não corresponde à verdade.
O amor nunca esteve ausente em nada, pois nada existe sem o amor. Ele está na essência de tudo, principalmente daquilo que convencionamos chamar de bem e mal. Ele é a fonte absoluta. Nada existe sem o amor, mesmo que nossa capacidade limitada de compreensão não possa alcançar essa verdade, mesmo que as nossas convicções nos coloquem em trincheiras contra aquilo que consideramos mal — mesmo assim, nada pode existir sem ele.
O bem e o mal pertencem ao homem, pois ele vive na dualidade, por isso separa tudo. Coloca o bem de um lado e o mal do outro. O amor não tem nada a ver com isso; ele transita livremente pelo infinito, por todos os campos, presente nas duas trincheiras, com total neutralidade, esperando que uma fusão entre essas duas forças se realize, para que se fundam e se entendam.
O homem conceitua tudo, coloca cada coisa dentro de uma caixinha, escreve um significado, determina o uso de cada coisa para cada circunstância e depois guarda na estante para ser usado.
O amor não. O amor não mede, não julga, não separa, não combate e não participa de nenhuma contenda, seja ela qual for.
O homem confunde ignorância com mal, e esse é o maior equívoco da humanidade. A ignorância é apenas o lado escuro da lua — uma parte que não foi iluminada pelo sol, mas que pertence à mesma lua. O lado escuro não é o lado mal, mas sem ele não haveria lua. Nunca foi sobre bem e mal; sempre foi sobre a luz e a ausência dela. A manifestação do amor, em toda a sua plenitude, é paulatina, está condicionada a processos evolutivos, mas isso não significa que ele não está presente também nas sombras. O amor está em tudo, pois o amor é Deus. Deus é amor — lembram dessas palavras da carta de João?
Toda oposição é motivada pelo ódio, nunca pelo amor. Se você acredita que pertence ao lado do bem, mas sente aversão, saiba que está imbuído de um sentimento de ódio — e o ódio é o manto mais pesado que podemos colocar sobre o amor.
Seja no campo social, político, doméstico e até mesmo em nosso íntimo (na triste oposição que empreendemos contra nós mesmos), o ódio nunca irá entregar um resultado positivo, nunca promoverá transformações positivas; estará sempre lançando um véu sobre a nossa essência.
Lutar contra o aborto, a favor do aborto, contra a esquerda, contra a direita, contra o racismo, contra o machismo, lutar a favor de qualquer pauta identitária — enfim, lutar contra qualquer coisa é inútil, pois toda luta está sendo motivada pelo sentimento de ódio, um sentimento que nunca construiu nada, apenas fortalece aquilo que ataca.
Você não veio aqui para lutar; apenas não entendeu isso ainda. Você veio aqui para render-se, aceitar as proposições da Vida, pois este planeta é um educandário, onde as lições não são nada menos que propostas da Natureza para o seu crescimento.
Só o amor pode mudar qualquer cenário, derrubar qualquer preconceito, dar lugar de fala para qualquer minoria — enfim, só o amor constrói. Parece brega essa frase, mas é extremamente verdadeira.
O amor não problematiza, não dramatiza, não cria sentimentos de revolta contra qualquer sistema. E aquele que ama não se afeta, não sofre, não tenta corrigir nada, pois não tem o menor interesse em disputas territoriais. Seus objetivos são outros e estão além do bem e do mal. Quem está armado para qualquer tipo de luta age única e exclusivamente para atender os seus próprios interesses. Não despertou ainda para o Real e acredita infantilmente na possibilidade de mudar o mundo — no fundo, quer que tudo esteja mais confortável para si.
O amor simplesmente não enxerga o mal; apenas compreende as fragilidades humanas. Amar é a ação mais poderosa que existe: é a ação da não-ação (Wu Wei).
Aqueles que se posicionam atrás de trincheiras ideológicas, atrás de conceitos e valores mundanos, ainda não compreenderam o que é o amor. Só poderão compreender quando forem assaltados por esse sentimento.
Jesus não condenou César por cobrar impostos, não julgou a adúltera, dormiu na casa de Zaqueu, andou com os excluídos, ensinou pseudo sábios doutores da lei, proibiu Pedro de lutar, transformou água em vinho para os que queriam continuar bebendo, iluminou a samaritana, atendeu um centurião romano, curou cegos e aleijados — enfim, amou incondicionalmente toda a humanidade e tornou-se a força mais transformadora da história.
Só o amor pode dissolver amarras indesejáveis com o passado, só o amor pode
Transconhecimento
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