Confie no Universo. Não porque tudo acontecerá como você deseja, muito menos porque cada sofrimento tenha sido cuidadosamente preparado para lhe ensinar alguma coisa. Confie porque você enxerga apenas uma pequena parte daquilo que está acontecendo. Sua visão é limitada pelo tempo, pelos desejos, pelos medos e, principalmente, pela necessidade que a mente possui de dividir a existência entre aquilo que favorece seus interesses e aquilo que os contraria. Talvez você não esteja exatamente onde gostaria de estar. Talvez jamais tivesse escolhido as circunstâncias que agora enfrenta. Ainda assim, está aqui. E, se está aqui, é daqui que o caminho continua.

Nada precisa ser desperdiçado pela consciência. Mesmo aquilo que não compreendemos, aquilo que jamais escolheríamos e até aquilo que consideramos injusto ou absurdo pode ser atravessado, integrado e transformado. Isso não significa romantizar o sofrimento, tampouco imaginar um Deus distribuindo tragédias para educar seus filhos. Significa apenas reconhecer que a consciência pode retirar luz até mesmo dos lugares mais escuros da existência.

Sejam quais forem suas condições atuais, rico ou pobre, poderoso ou anônimo, cercado de pessoas ou absolutamente sozinho, lembre-se de que tudo isso é transitório. São circunstâncias, não identidades. Nenhuma delas consegue expressar a totalidade daquilo que você é. O grande equívoco começa quando confundimos a situação em que estamos com aquilo que somos e permitimos que um pequeno fragmento da existência reivindique para si o significado da vida inteira.

Você é muito mais do que aquilo que está acontecendo com você.

Talvez seja difícil perceber isso quando os problemas parecem gigantescos. Quando estamos no meio da tempestade, enxergamos apenas a tempestade. A mente aproxima o sofrimento dos olhos até que ele ocupe todo o horizonte e, então, passamos a acreditar que a realidade inteira se resume àquilo. Mas nenhum acontecimento possui o tamanho do Todo. É a nossa perspectiva que, temporariamente, tornou-se pequena demais.

Para enxergar mais longe, é preciso subir a montanha.

Lá embaixo vemos pedras, obstáculos, precipícios e o pequeno trecho de estrada que está diante dos nossos pés. À medida que subimos, porém, a paisagem começa a se revelar. Aquilo que parecia desconexo encontra relações; caminhos aparentemente absurdos passam a fazer parte de uma geografia maior; algumas curvas que julgávamos desvios revelam-se partes inevitáveis da própria estrada. A paisagem não mudou. Mudou o lugar de onde passamos a contemplá-la.

Assim também acontece com a consciência.

Enquanto permanecemos aprisionados à realidade da mente, identificados com seus medos, desejos, expectativas e exigências, enxergamos apenas fragmentos. Queremos que a existência corresponda aos nossos projetos e chamamos de felicidade quando ela obedece; quando não obedece, dizemos que alguma coisa está errada. Talvez grande parte do sofrimento psicológico nasça justamente dessa pretensão: queremos que o Todo se ajuste à perspectiva de uma parte.

Confiar no Universo não significa acreditar ingenuamente que tudo acontecerá como desejamos. É exatamente o contrário: significa deixar de exigir que o Universo corresponda aos nossos desejos.

A subida da montanha nem sempre será confortável. Haverá cansaço, medo, indignação, revolta e momentos em que desejaremos abandonar tudo. Não precisamos fingir serenidade quando estamos sofrendo nem agradecer artificialmente por aquilo que ainda não conseguimos compreender. Aceitação não é representar tranquilidade. Aceitação é interromper a guerra inútil contra o fato de que aquilo que está acontecendo já está acontecendo.

Durante muito tempo, uma frase que conheci através do universo espiritualista ligado ao Professor Hermógenes ressoou em minha vida como um verdadeiro mantra:

Entrego, confio, aceito e agradeço.

Há uma sabedoria extraordinária nessas quatro palavras.

Entrego porque reconheço que não controlo o Todo. Confio porque sei que minha visão alcança apenas uma pequena parte da paisagem. Aceito porque lutar contra aquilo que já é apenas multiplica o sofrimento. E agradeço não porque tudo tenha sido agradável, justo ou compreensível, mas porque me recuso a permitir que a dor tenha a última palavra sobre aquilo que sou.

Entregar-se, portanto, não significa desistir.

Talvez seja justamente o contrário.

Desistir é abandonar a caminhada. Entregar-se é abandonar a pretensão de controlar a montanha. Continuamos andando, fazemos aquilo que precisa ser feito, enfrentamos aquilo que precisa ser enfrentado, mas deixamos de exigir garantias. Existe uma diferença imensa entre agir sobre a realidade e lutar contra a existência da realidade.

A vida continuará retirando de nossas mãos aquilo que imaginávamos possuir para sempre. Pessoas partirão. Corpos envelhecerão. Projetos fracassarão. Certezas desaparecerão. Identidades que pareciam sólidas serão destruídas pelo tempo. E talvez exista nisso uma mensagem espiritual muito mais profunda do que qualquer promessa de felicidade: a vida não está necessariamente nos conduzindo para aquilo que desejamos. Está revelando, pouco a pouco, que nenhuma dessas coisas poderia sustentar aquilo que somos.

A vida não nos empurra em direção à Luz. Ela destrói, pouco a pouco, tudo aquilo que nos impede de percebê-la.

Por isso, talvez a jornada espiritual não seja exatamente uma viagem para algum lugar superior. Talvez não exista um ponto distante da existência onde finalmente encontraremos aquilo que procuramos. A própria ideia de chegar pertence à mente, porque somente aquele que acredita estar separado precisa imaginar um caminho de retorno.

É aqui que a parábola do filho pródigo adquire uma dimensão extraordinária. O filho abandona a casa, atravessa o mundo, experimenta a distância, a miséria e o sofrimento e, finalmente, retorna. Mas a casa nunca deixou de existir. O Pai nunca deixou de ser Pai. As portas nunca estiveram realmente fechadas. Toda a tragédia estava sustentada pela experiência da separação.

Talvez sejamos esses filhos pródigos.

Passamos a existência procurando no mundo aquilo que jamais esteve no mundo. Buscamos segurança no dinheiro, permanência nos relacionamentos, identidade no reconhecimento, felicidade nas circunstâncias e eternidade nas coisas que o tempo inevitavelmente destruirá. Depois nos revoltamos quando descobrimos que o transitório continua sendo transitório.

Queremos voltar para casa sem perceber que nunca saímos dela.

A montanha, então, revela seu último segredo. Durante toda a subida imaginávamos que a Luz estaria no topo. Acreditávamos que, depois de muito esforço, sofrimento e desenvolvimento, finalmente alcançaríamos uma condição superior. Mas talvez, ao chegar lá, descubramos algo desconcertante: a Luz esteve presente durante todo o caminho. Estava no vale, nas pedras, nas quedas, no cansaço, nas dúvidas e até nos momentos em que amaldiçoávamos a própria caminhada.

Quem não conseguia percebê-la era o personagem ocupado demais consigo mesmo.

Não existe atraso para quem nunca esteve separado daquilo que procura. Não existe distância capaz de afastar o Ser de sua própria Natureza. Não existe caminho suficientemente longo para levar você até aquilo que já está presente.

Seu lugar não é na pequena realidade construída pelos seus medos. Seu lugar não é dentro do personagem que você passou a vida inteira tentando proteger. Seu lugar não é entre as paredes estreitas daquilo que a mente consegue compreender.

Existe um trono além dessas fronteiras.

O trono da Realidade.

E talvez todo o Universo não esteja trabalhando para conduzi-lo até lá, porque, em verdade, você nunca esteve fora dele.

Pare de resistir.

Pare de exigir garantias.

Pare de perguntar à vida por que ela não obedece aos seus desejos.

A casa continua aberta.

A Luz continua acesa.

Entregue-se.