Na Mitologia Grega, encontramos a figura extraordinária do centauro: um ser com torso e cabeça humanos, mas com o corpo de um cavalo. Simbolicamente, o centauro pode ser compreendido como uma representação do próprio homem, dividido entre a consciência e a força dos seus instintos. É o bicho-homem, ainda submetido aos impulsos do corpo, às paixões e à sedução incessante dos sentidos.
Percebam que é justamente abaixo do tórax que começa essa transformação. O homem termina e o animal começa. Há nessa imagem uma ruptura que parece denunciar a nossa própria condição: existe em nós uma natureza que aspira ao alto e outra que permanece profundamente ligada à terra, ao corpo, ao desejo e à satisfação imediata.
O problema, entretanto, não está no fato de possuirmos instintos. O problema é sermos possuídos por eles.
É justamente nessa região inferior do corpo que se concentram alguns dos impulsos mais poderosos da natureza humana. Sexo, comida, bebida e toda sorte de prazeres sensoriais exercem sobre nós um enorme poder porque somos viciados em sensações. Não nos contentamos em experimentar o prazer; queremos repeti-lo. Depois, repeti-lo novamente. E assim vamos construindo uma existência dedicada, em grande parte, à satisfação dos mesmos impulsos.
O corpo torna-se uma verdadeira usina a serviço dos sentidos.
Diversas tradições espirituais ensinam que a energia vital pode ser dispersada na satisfação incessante dos desejos ou transmutada e direcionada para formas superiores de manifestação. A psicologia, utilizando outra linguagem, também reconhece algo semelhante através do conceito de sublimação: a força pulsional não precisa ser simplesmente reprimida; pode ser transformada em pensamento, arte, criação, conhecimento e desenvolvimento interior.
Portanto, não se trata de destruir a força, mas de aprender a utilizá-la.
Vivemos, porém, concentrados na parte animal desse centauro. Alimentamos incessantemente os centros inferiores da existência enquanto deixamos subnutridas as possibilidades superiores do ser. Nas tradições espiritualistas, os diferentes centros de força estão relacionados a determinadas faculdades da consciência: o cardíaco, aos sentimentos; o laríngeo, à expressão; o frontal, à percepção e ao pensamento; o coronário, à transcendência e à expansão da consciência.
Podemos discutir os nomes, os sistemas e até mesmo a existência objetiva desses centros, mas o símbolo permanece poderoso: quanto de nossa energia é destinado simplesmente à satisfação dos sentidos e quanto é utilizado para desenvolver aquilo que existe de mais elevado em nós?
Produzimos forças extraordinárias e frequentemente as desperdiçamos apenas para experimentar alguns segundos de prazer. Depois queremos mais. E mais. Assim permanecemos entorpecidos, girando em torno dos mesmos desejos, acreditando que estamos vivendo quando, na verdade, estamos apenas repetindo.
Devemos então renunciar ao sexo, aos prazeres de um bom prato ou de um bom vinho?
Não, meus amigos.
Não se trata de amputar o animal. Trata-se de deixar de ser governado por ele.
Somos seres que aspiram ao divino, mas também somos bichos. Não podemos viver exclusivamente submetidos à nossa natureza animal, mas também não devemos destruí-la. O animal possui força, vitalidade, desejo, potência. Tudo isso é necessário. O que precisamos modificar é a relação que mantemos com essas forças.
O cavalo precisa deixar de escolher o caminho.
Talvez essa seja uma das grandes lições contidas na imagem do centauro. Curiosamente, o homem não está montado sobre o cavalo. Não são dois seres separados. Homem e animal formam uma única criatura. Não podemos simplesmente abandonar aquilo que existe de instintivo em nós. Precisamos integrá-lo, educá-lo e colocá-lo a serviço de uma consciência maior.
Entre os centauros encontramos Quíron, figura singular da mitologia grega. Diferentemente de muitos de seus semelhantes, conhecidos pela violência e pelo descontrole, Quíron era sábio, mestre, curador e educador. Grandes heróis da Antiguidade passaram por seus ensinamentos.
E isso é extremamente significativo.
Quíron continua sendo centauro.
Ele não precisou deixar de ser animal para tornar-se sábio.
Segundo o mito, ferido incuravelmente e condenado ao sofrimento justamente por ser imortal, Quíron renuncia à própria imortalidade, permitindo também a libertação de Prometeu. Sua história transforma o centauro em algo muito maior do que uma criatura dividida entre homem e animal: transforma-o numa imagem de superação.
A própria figura do centauro arqueiro, com a flecha apontada para o alto, oferece um símbolo extraordinário dessa condição. Os cascos continuam tocando a terra, o corpo animal permanece presente, mas existe agora uma direção.
A flecha aponta para cima.
Talvez seja exatamente isso que nos falte: direção.
Não precisamos destruir aquilo que existe abaixo para alcançar aquilo que existe acima. Precisamos fazer com que as forças inferiores deixem de comandar nossa existência e passem a fornecer energia para aquilo que desejamos nos tornar.
Toda saga heroica pode ser compreendida dessa maneira. Os monstros, obstáculos, labirintos e batalhas encontrados pelos heróis representam também as forças que precisam ser enfrentadas dentro do próprio homem. Antes de conquistar qualquer reino exterior, o verdadeiro herói precisa conquistar a si mesmo.
E talvez seja justamente aí que fracasse grande parte da humanidade.
Não conseguimos vencer nossas compulsões, nossos ressentimentos, nossa vaidade, nossa necessidade de aprovação, nossos apetites e nossas inclinações mais primitivas, mas queremos mudar o mundo. Queremos ensinar, corrigir, salvar e iluminar os outros sem sequer saber quem governa dentro de nós.
É preciso modificar a própria natureza para aspirar a uma condição mais elevada.
Por isso desconfio profundamente dos pseudo-iluminados que falam sobre transcendência enquanto continuam escravos das próprias inclinações.
A iluminação não acontece quando o homem mata o animal que existe nele.
Acontece quando o animal deixa de determinar a direção de sua existência.
O centauro continuará existindo.
A questão é apenas saber para onde apontamos a flecha.
Transconhecimento
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