Olho para o mundo com tristeza. Vejo tanto esforço das pessoas no sentido de tornarem-se alguém e isso, é claro, me entristece. Percebo as pessoas cada vez mais ansiosas, preocupadas, focadas em metas e totalmente desconectadas do presente, do aqui e do agora. Querem ser, mas esquecem de estar. A expressiva maioria da humanidade ainda não compreendeu a dinâmica desse jogo.

Entenda bem: não se trata de tornar-se alguém, mas de entender, de corpo e alma, que você não precisa ser alguém. Aliás, precisa deixar de ser alguém e compreender que a sua Verdadeira Natureza não está limitada ao corpo. Você não está dentro do corpo; o corpo aparece em você.

Está na hora de perceber que o seu Reino não é e nunca será deste mundo. Quanto mais você exigir que o mundo lhe dê aquilo que acredita faltar em você, mais estará preso a ele. A verdadeira renúncia não consiste em abandonar o mundo, mas em deixar de precisar dele.

Estamos intoxicados de mundo, conectados ao extremo com os enredos sociais, presos em telas de celulares e computadores, regidos por desejos e extremamente entorpecidos. Estamos tão hipnotizados que já não conseguimos perceber o óbvio: a Realidade está além desse jogo.

Ao perder o fascínio pelo mundo, o homem começa o seu processo de despertar. Não existe poder maior do que o desinteresse, mas, para que ele surja, é necessário trabalhar arduamente a principal das virtudes: a renúncia. O homem precisa interessar-se mais pelo silêncio e pela solidão e deixar de dar ouvidos aos ruídos terrenos.

Isso não significa abandonar a vida. Significa abandonar a exigência de que a vida nos complete.

Quando o seu corpo for morada de paz e felicidade, ele estará em ressonância com o seu Eu Verdadeiro, refletindo tudo aquilo que existe de divino.

Nesse estado de graça, os desejos se dissipam, as necessidades desaparecem, os vícios mentais deixam de exercer domínio sobre você e você se torna Testemunha de Tudo. Você deixa de acreditar que é apenas o ator e passa a contemplar o espetáculo. O personagem continua em cena, o mundo continua acontecendo, mas você já não confunde o papel com aquilo que verdadeiramente é.

E talvez exista ainda uma descoberta maior: ator, espectador, palco e espetáculo surgem dentro da mesma Consciência.

Todo o espetáculo construído pelo próprio Universo estará diante de você como uma diversão. Isso é Leela, isso é a Brincadeira do Divino.

Nietzsche talvez tenha dito uma das frases mais poderosas das últimas gerações:

“Torna-te quem tu és.”

Essa frase mostra que a ânsia por tornar-se um personagem qualquer, ajustado às expectativas externas ou objeto dos próprios desejos, é um tremendo equívoco. Basta, para o ser humano, ser aquilo que ele já é.

Se, por algum motivo, ele não estiver contente com o que estiver vendo, deve investigar a fundo. Não procurar outra identidade, outro personagem ou uma versão melhor de si mesmo, mas atravessar as fronteiras daquilo que acredita ser. Dessa forma, poderá encontrar aquilo que existe de mais poderoso no Universo: algo que não nasce e não morre, onde Consciência e Eternidade vivem de mãos dadas.

Eis o Reino de Deus tão citado por Jesus.

Tudo o que vibra no Universo está inserido dentro de um mesmo processo: o processo de reconhecimento de si mesmo. Mas talvez aqui esteja o grande paradoxo: o Universo não espera nada de nós. Somos nós que esperamos alguma coisa de nós mesmos.

Não precisamos chegar a lugar algum para sermos aquilo que já somos.

Perder a vida tentando tornar-se alguém é uma forma de insanidade.

Ser o quê?

Uma construção mental qualquer que aparece e desaparece no tempo e no espaço?

Você sofre tentando chegar a si mesmo. Mas como chegar àquilo de onde nunca saiu?

Talvez até mesmo o caminho espiritual carregue consigo uma última ilusão: a ideia de que existe uma distância entre você e aquilo que procura.

Digo com o coração cheio de amor:

Apenas seja o que você já é e esteja onde você está.