Jesus tinha muito a nos dizer, mas precisou se conter. Ele próprio admitiu: “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora.” — João 16:12.
Talvez não estivéssemos prontos para compreender.
E talvez ainda não estejamos.
Jesus falava de um Reino de Deus que não poderia ser encontrado nos lugares onde insistimos em procurá-lo. Um reino de paz, alegria, justiça e plenitude. Ainda assim, continuamos acreditando nesse Reino como se fosse um lugar a ser alcançado — algo externo, distante, futuro — e que só chegaremos lá se seguirmos uma espécie de cartilha comportamental: purificar o coração, fazer o bem, obedecer certas regras.
Mas será que é isso mesmo que Jesus quis nos revelar?
Acredito que não. Jesus veio, acima de tudo, para sinalizar o verdadeiro objetivo da condição humana. Ele apontou para uma inflexão radical: parar de buscar fora aquilo que já existe dentro de nós.
“O Reino de Deus não vem de modo visível, nem se dirá: ‘Ei-lo aqui!’ ou ‘Lá está ele!’, porque o Reino de Deus está dentro de vós.”
— Lucas 17:20-21
Algumas traduções apresentam a expressão como “dentro de vós”; outras, como “entre vós” ou “no meio de vós”. Interessa-me aqui a primeira possibilidade, porque ela aponta para uma compreensão que considero fundamental: talvez tenhamos passado séculos procurando externamente aquilo que jamais esteve separado de nós.
Ainda assim, permanecemos confusos. Acreditamos que, para sermos aceitos nesse Reino, precisamos nos ajustar a uma série de imperativos. Com isso, vivemos de “pires na mão”, pedindo misericórdia divina, clamando por socorro, batendo às portas desse Reino como se fôssemos exilados.
Mas a verdade — tão simples que ofende a mente complexa — é que nunca estivemos fora desse Reino.
Talvez nem sequer seja correto dizer que somos seus donos. Ser dono ainda pressupõe separação: alguém que possui e alguma coisa que é possuída. A questão é muito mais radical. Não precisamos conquistar o Reino, nem pedir permissão para entrar nele. Precisamos despertar para aquilo que já somos.
Gosto de pensar no Reino como uma imagem da própria Realidade — não como uma relação etimológica entre as palavras, mas como uma metáfora. A Realidade que existe antes das ilusões que construímos, antes dos personagens que criamos, antes de todas as identificações que acumulamos e passamos a chamar de “eu”.
Só compreenderemos isso quando despertarmos. Quando percebermos que vivíamos num mundo de sombras, tomando o reflexo pelo original. Jesus veio nos mostrar um caminho para esse despertar, apontando para uma realidade que não deveria ser procurada em algum lugar distante.
É como se vivêssemos às portas de um castelo, pedindo esmolas, implorando ajuda, procurando alguém que nos permita entrar — sem perceber que jamais estivemos realmente do lado de fora, na verdade, o castelo é nosso e o trono nos pertence.
Percebem o tamanho da nossa ignorância?
Não se trata de alcançar nada. Não se trata de conquistar nada. Não se trata sequer de convencer a mente de alguma coisa, pois a mente pode acreditar tanto na verdade quanto na mentira. Trata-se de remover aquilo que nos impede de enxergar.
E para ser o que você já é, é preciso deixar de se identificar com aquilo que você não é.
Esse é o esforço necessário.
Os ensinamentos de Jesus ganharam profunda aderência no Ocidente, mas no Oriente outros grandes mestres apontaram, por caminhos diferentes, para direções semelhantes. As tradições não dizem exatamente a mesma coisa, nem precisam dizer. Suas cosmologias, símbolos e concepções metafísicas muitas vezes divergem profundamente. Mas algumas intuições atravessam essas diferenças: a necessidade de superar as ilusões do ego, de abandonar falsas identificações e de procurar além das aparências aquilo que é essencial.
O que varia é a roupagem. Talvez alguns dedos apontem para direções diferentes, mas há entre eles uma insistência comum: não confunda aquilo que você pensa ser com aquilo que você é.
Enquanto não priorizarmos esse entendimento — enquanto não percebermos que a própria existência nos confronta continuamente com essa verdade — continuaremos perdidos na escuridão, tateando em busca de segurança. E, nessa vulnerabilidade, nos tornamos presas fáceis dos mercadores da fé, que se aproveitam da nossa ignorância para vender aquilo que jamais precisou ser comprado.
Pagamos por mapas, intermediários e chaves para uma porta que talvez nunca tenha estado trancada.
Talvez esse seja o grande equívoco: continuamos procurando o Reino como se houvesse alguma distância entre nós e ele.
Dizemos que o Reino está “dentro” porque precisamos das palavras para apontar uma direção. Mas até o dentro e o fora pertencem às divisões da mente. Se aquilo que chamamos de Reino é a própria Realidade, então não existe lugar onde ele não esteja. Não existe um lado de fora.
A separação talvez seja a verdadeira ilusão.
Por isso, o convite permanece, silencioso e inegociável:
Acorda.
O Reino não está distante. Nunca esteve.
Não precisas encontrar a porta, porque jamais estiveste do lado de fora.
Aquilo que procuravas era aquilo que procurava.
Transconhecimento
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