O diamante já é um diamante, mesmo quando escondido no manto terrestre ou sob o lodo de um pântano. Nada pode mudar sua natureza. Um profissional pode fazer seu brilho refulgir através de um processo de lapidação, mas isso não significa que o diamante fosse menos diamante antes de sua ação.

A lapidação não acrescenta natureza ao diamante. Apenas revela aquilo que ele já era.

Tudo isso serve de analogia, pois o homem também é um diamante, embora muitas vezes acredite ser algo sem grande valor, justamente por estar coberto por medos, ressentimentos, culpas, desejos e toda sorte de construções mentais. Confunde aquilo que carrega com aquilo que é. No entanto, assim como acontece com a joia, sua essência permanece intacta.

O lodo pode esconder o brilho. Não pode contaminar a natureza da pedra.

“O espírito, de fato, está pronto, mas a carne é fraca.” Toda a beleza, todo o brilho, toda a plenitude sonhada pelo homem, embora ele não saiba, já fazem parte de sua Verdadeira Natureza. São atributos de sua essência. O homem já é, agora, tudo aquilo que precisa ser, embora ainda desconheça isso.

Por essa razão, penso que talvez a palavra mais adequada para o processo que incide sobre a condição humana não seja evolução, mas reconhecimento. Não evoluímos para nos tornar aquilo que ainda não somos. Lapidamo-nos para reconhecer aquilo que sempre fomos.

É por isso que recorro tantas vezes à imagem do filho pródigo retornando à casa do Pai. Ele não vai para um lugar novo. Ele volta. Existe uma diferença profunda entre partir em busca de algo que não temos e retornar àquilo que sempre nos pertenceu.

Na verdade, tudo aquilo que se move ou vibra parece estar inserido nesse grande processo de lapidação, do mineral ao homem. Cada pedra, cada planta, cada animal, cada ser está submetido às mesmas Leis. Não existe distinção nem favorecimento, pois a chuva e o sol caem sobre bons e maus, justos e injustos.

A Natureza é a grande artesã. Ela não tem pressa, não dá saltos. Suas transformações são lentas e gradativas, processadas sob a égide da eternidade.

Nós temos pressa. A Natureza tem a eternidade.

Existem duas maneiras de lidar com isso: ou nos revoltamos contra a realidade e nos refugiamos num mundo ilusório criado pela mente, ou aceitamos nossa condição e nos entregamos ao processo de lapidação da Natureza.

E aqui surge um aparente paradoxo: quanto mais rapidamente deixamos de lutar contra a realidade, mais aceleramos nossa própria lapidação. Queremos avançar, mas avançamos justamente quando deixamos de resistir.

Deixar de lutar, porém, não significa permanecer inerte. Significa não lutar contra as proposições da Vida. Tudo pode ser tratado como uma Graça recebida, tudo pode ser compreendido como aprendizado, tudo pode ser reverenciado como expressão da Vontade do Pai. Nossa participação nesse processo está na maneira como respondemos àquilo que a Vida apresenta.

E, para isso, serão necessárias humildade, confiança, alegria, coragem, perseverança, serenidade e renúncia. Mas nem mesmo essas virtudes precisam ser fabricadas como se estivéssemos acrescentando qualidades a uma alma defeituosa. As virtudes não são ornamentos colocados sobre a alma; são facetas que aparecem quando aquilo que as encobria começa a ser removido.

O diamante já possuía todas elas.

Por desconhecer o Eu, que pertence ao Real, o homem fabrica um substituto: o ego. Constrói um personagem a partir dos próprios medos, desejos, lembranças, carências e identificações e passa a acreditar que esse personagem é ele.

Esquece o diamante e passa a vida inteira polindo a bijuteria.

Quer torná-la importante. Quer que seja admirada. Precisa que os outros reconheçam seu valor. Compara sua bijuteria com a dos outros, sofre quando ela é desprezada, revolta-se quando alguém a critica e passa boa parte da existência tentando protegê-la.

Enquanto isso, o diamante permanece esquecido.

Quando esse homem se vê diante do martelo da lapidação, foge. Não compreende que aquilo que parece feri-lo talvez esteja apenas quebrando as estruturas que encobrem sua verdadeira natureza. Revolta-se contra as experiências, amaldiçoa as perdas, protesta contra a realidade e procura desesperadamente algum lugar onde possa esconder-se daquilo que a Vida lhe apresenta.

Então mergulha novamente na escuridão do abismo, retorna simbolicamente ao útero da terra e tenta construir sua realização em meio às trevas. Não percebe que está apenas adiando o processo e produzindo mais sofrimento para si.

Parece um contrassenso: o homem quer a realização, quer realizar-se, mas não gosta daquilo que é o Real.

Quer realizar-se através do dinheiro, das conquistas, do reconhecimento, das relações, dos títulos, do poder, da aprovação. Procura no futuro aquilo que acredita faltar no presente e passa a existência acrescentando coisas ao personagem, imaginando que, quando finalmente possuir o suficiente, será completo.

Mas como alguém pode realizar-se fugindo do Real?

Talvez tenhamos perdido até mesmo o sentido profundo daquilo que buscamos. Realização não é necessariamente acrescentar alguma coisa àquilo que somos. Não é construir um personagem mais importante, acumular experiências ou finalmente conseguir tudo aquilo que desejamos.

Realizar-se é tornar-se íntimo do Real.

E o Real não está no futuro. Não depende da próxima conquista. Não está escondido em algum lugar onde finalmente chegaremos depois de muito esforço.

Talvez todo o nosso equívoco esteja em acreditar que precisamos acrescentar alguma coisa a nós mesmos.

Queremos evoluir.

Queremos melhorar.

Queremos conquistar.

Queremos chegar.

Queremos nos tornar.

E a Natureza, pacientemente, talvez esteja fazendo exatamente o movimento contrário: retirando.

Retirando nossas ilusões. Retirando nossas falsas seguranças. Retirando as identificações. Retirando aquilo a que nos agarramos. Retirando, golpe após golpe, tudo aquilo que confundimos conosco.

É isso que faz o lapidador.

Ele não acrescenta nada ao diamante.

Ele retira.

Talvez aconteça exatamente o mesmo conosco. Talvez a grande obra da existência não seja construir um novo ser, mas remover aquilo que impede o verdadeiro de aparecer.

Retire o medo, retire o desejo, retire as identificações, retire as máscaras, retire o personagem. Retire tudo aquilo que pode ser retirado.

E veja o que sobra.

Você não precisa tornar-se um diamante.

O diamante já estava lá.