Tentaram apresentar a escuridão ao Sr. Sol, mas ele não conseguiu vê-la. Segue sem conhecer a Dona Escuridão, pois, todas as vezes que olhou para ela, nada enxergou.
Essa pequena história, embora lúdica, guarda uma verdade profunda: a escuridão não possui existência própria. O que existe é a ausência de luz. A escuridão não é uma força que se opõe à luz, não trava batalhas contra ela, não oferece resistência. Basta que a luz se faça presente para que a escuridão desapareça.
E assim acontece conosco.
Vivemos, muitas vezes, presos na escuridão interior: guiados por medos e desejos, imersos em angústias e revoltas, identificados com as construções ilusórias da mente. Esquecemos que, assim como a luz dissipa a escuridão, a consciência dissolve a ilusão.
E há algo extraordinário nessa constatação: a luz não precisa lutar contra a escuridão.
O Sol não combate a noite. Não discute com ela, não procura destruí-la, não tenta compreender suas razões. Simplesmente ilumina. E, diante da luz, aquilo que parecia possuir existência própria desaparece.
Talvez devêssemos fazer o mesmo com as nossas sombras.
O que ainda não percebemos é que esse Sol existe dentro de nós. A luz que procuramos não está separada daquilo que somos. Somos iluminados em essência, mas permanecemos identificados com a escuridão. Em algum ponto do caminho, passamos a nos reconhecer mais nas sombras do que na própria luz. Fomos seduzidos pelo canto da sereia e conduzidos ao abismo — um lugar onde o Sol parece não alcançar e onde o sofrimento reina.
Mas o Sol continua lá.
Vejamos o exemplo do filho pródigo. No início, ele vivia em abundância, sob a proteção e a plenitude da casa paterna. Seduzido pelas possibilidades do mundo, partiu em busca de novas experiências. Não percebeu, porém, que seus recursos — internos e externos — se dilapidavam pouco a pouco.
Quando se deu conta, encontrava-se perdido, desorientado, distante de casa. Sofria as consequências de suas escolhas: a fome, a miséria, a humilhação. Foi então que, em meio à escuridão, lembrou-se do Pai — lembrou-se do Sol.
E decidiu voltar.
Escolheu, por si mesmo, retornar à luz.
Grande foi a festa em sua chegada. A alegria não veio apenas por ele ter voltado, mas por ter despertado. É como se, naquele instante, toda a existência celebrasse com ele. O filho que estava perdido havia se encontrado. Não encontrou uma nova casa. Lembrou-se de onde sempre pertenceu.
Não sei qual é a escuridão que você atravessa neste momento em que este texto cruza o seu caminho. Não conheço suas angústias, seus medos, suas aflições, culpas, remorsos ou frustrações. Mas talvez exista dentro de você muito mais luz do que consegue perceber.
Não é preciso convencer-se de que você é um Sol. Convencimento ainda pertence à mente, e a mente pode convencer-se tanto da verdade quanto da mentira. É preciso descobrir a luz que permaneceu encoberta.
Olhe, com consciência e coragem, para aquilo que hoje ocupa sua mente.
Não lute.
Ilumine.
A escuridão não precisa ser destruída. Precisa ser iluminada.
Aquilo que é visto pela consciência começa a perder o poder que exercia enquanto permanecia escondido. Talvez aquilo que chamamos escuridão seja apenas uma região de nós mesmos que ainda não foi alcançada pela luz da consciência.
Acredite nessa luz. Não como quem adere a uma crença, mas como quem confia na possibilidade de enxergar além das nuvens. O Sol pode permanecer encoberto por muito tempo — por convicções negativas, medos, condicionamentos e ideias equivocadas que carregamos sobre nós mesmos —, mas nenhuma nuvem é capaz de apagar o Sol.
Fique em silêncio.
Torne-se apenas um observador dos seus pensamentos — sem julgá-los, sem alimentá-los e, sobretudo, sem confundi-los com você. Não tente expulsá-los apenas porque incomodam. Observe-os. Deixe que se apresentem à consciência. Não lhes ofereça a energia necessária para que continuem comandando sua vida.
Com o tempo, talvez eles também percam o interesse por você.
Em algum momento, você começará a perceber um ponto de luz em sua consciência. Permaneça nele. Permita que cresça. Se quiser, dê a ele a forma de um Sol — o seu Sol interior. Deixe que essa luz se espalhe por todo o seu campo psíquico, como uma alvorada luminosa dissolvendo lentamente a noite.
Não há nada a combater.
Apenas ilumine.
Você começará a perceber o quanto esteve identificado com forças escuras e ilusórias que nunca foram você. Medos que você chamou de seus. Culpas que carregou como identidade. Feridas que se transformaram em personagens. Pensamentos aos quais entregou o direito de dizer quem você era.
E talvez descubra que a sombra nunca foi sua inimiga.
Era apenas aquilo que você ainda não conseguia enxergar.
Quando a consciência finalmente alcança esses lugares, não é preciso expulsar demônios, matar dragões ou declarar guerra à própria escuridão. A luz simplesmente revela aquilo que estava escondido. E aquilo que parecia tão poderoso enquanto habitava as sombras começa a perder sua força quando pode, finalmente, ser visto.
Talvez seja esse o nosso grande equívoco: passamos a vida lutando contra a escuridão quando deveríamos simplesmente acender a luz.
E, nesse instante, compreenderemos por que o Sr. Sol jamais pôde conhecer a Dona Escuridão.
Todas as vezes que tentou olhar para ela, sua própria presença a fez desaparecer.
Ele só via a si mesmo.
Transconhecimento
Reflexões & Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Compartilhe seu pensamento!
Deixe sua perspectiva