Quem, de fato, sou eu? De onde vim? E, acima de tudo: quem é esse que faz essas perguntas?

Desde muito cedo, convivo com uma estranha sensação: a de que existe algo maior em mim. Às vezes, sinto-me como um leão que foi criado por um pastor de ovelhas e acredita ser uma delas. Convivo com um sentimento de inadequação, querendo ultrapassar as fronteiras dos meus pensamentos e colidindo com muros intransponíveis. A impressão de que existe um mundo maior, além desses muros, me acompanha, mas não consigo explicá-la. Vive em mim, desde sempre, uma sensação de impotência para conceituar aquilo que sinto. Quanto mais eu me aprofundo, mais me perco. São muitas indagações sem resposta.

Fui criado em uma família católica tradicional, absolutamente doutrinada dentro dos cânones da igreja. Lembro-me de um padre a quem eu indagava questões como essas, e ele sempre me respondia de forma um tanto protocolar: "Meu filho, tudo isso é mistério da fé". Sempre achei isso uma desculpa conveniente para esconder a própria ignorância. Muito cedo percebi que aquele homem sabia pouco acerca da realidade; seu conhecimento estava limitado às prescrições de sua doutrina. Eu queria respostas racionais, palpáveis. A fé cega em dogmas seculares não conseguia aplacar a minha inquietação. Passei a duvidar de tudo, absolutamente tudo. Fiquei amargurado, solitário, indiferente à cegueira das pessoas ao meu redor. Voltei completamente aos meus devaneios.

Uma ânsia por respostas, uma curiosidade natural me acompanhavam naqueles tempos. Estava receptivo ao extremo, ouvindo, pesquisando, buscando, com uma fome que representava as angústias da época. Sem perceber, tornara-me uma presa fácil para falsos gurus. Estava me comportando como um rato seguindo qualquer tocador de flautas que aparecesse. Perdido e desorientado, como se estivesse caminhando por uma estrada sem placas, onde a incerteza do destino gerava um desespero real. Andei por vários caminhos enquanto atravessava a minha adolescência. A falta de um saber mais profundo acerca das coisas me arrastou para experiências difíceis. Estava perdido, sem saber para onde ir, como um touro solto em meio à multidão.

Medo da vida, medo da escuridão, medo do fracasso, medo... medo... medo. Medo de absolutamente tudo. Agarrando-me a tudo aquilo que me deixasse seguro e pudesse servir de útero.

Não queria enfrentar coisa alguma, mas aquela angústia me perseguia. Vivia em campos internos de batalha sem saber o que estava combatendo. Um pobre soldado, desarmado, sem estratégia de luta, pisando em minas escondidas, sendo empurrado pela vida ao confronto de si mesmo.

Vivi sob o comando da própria ignorância por anos. E o mais absurdo é que comecei a acreditar que a vida se resumia àquilo. Permaneci preso à tensão daquela existência de luta até começar a perceber algo estranho: havia uma espécie de cansaço silencioso dentro de mim, como se alguma coisa estivesse tentando nascer através do sofrimento. Aos poucos, enxerguei a futilidade de muitas das coisas às quais me agarrava. Sem notar, fui perdendo o interesse, o pertencimento, como se o mundo ao meu redor já não fizesse sentido. Estava desistindo de tudo; ajustei-me, de alguma forma, àquele presídio mental, aceitei o jugo do destino e soltei as poucas coisas às quais me agarrava.

Foi então que algo aconteceu.

Sentado num banco qualquer, lendo os primeiros versos do Tao Te Ching — sentindo as marteladas de cada verso, totalmente absorto, em total abstração — algo se abriu.

Surgiu, de forma instantânea, do nada, uma mudança radical em mim. Era um vazio, mas não um vazio representando o nada — um vazio conectado com tudo, que não buscava preenchimento, pelo contrário, expressava plenitude. O vazio do real.

Pela primeira vez, consegui enxergar verdadeiramente o mundo. Minhas mãos, o livro que segurava, os objetos ao meu redor — tudo parecia diferente, como se alguém tivesse removido o véu que obscurecia a minha visão. Fui tomado por uma alegria impossível de traduzir. Não existia mais um centro pessoal carregado de identificações. Havia apenas presença. Uma presença viva, silenciosa, sem forma. A turbulência, a guerra e os conflitos internos desapareceram instantaneamente. Fui catapultado para a realidade — uma realidade que sempre esteve diante de mim, mas que eu jamais havia enxergado. Estive cego durante toda a minha vida. Agora eu via o óbvio. O agora absoluto. O presente... Meu Deus, o presente!

As janelas do pensamento se fecharam. As paisagens mentais, os roteiros internos, as projeções e os ruídos desapareceram de uma só vez. Era como permanecer em uma estação de trem sem que existisse qualquer trem capaz de me tirar dali. Como é difícil encontrar a imagem exata. Tudo o que eu disser ainda será insuficiente para traduzir aquele estado.

Lembrei-me de Jesus. Quando ele queria explicar o que era o Reino de Deus para aquele povo simples e sofrido, recorria a parábolas. Em uma delas, falou de um homem que encontrou um tesouro escondido em um campo, e de como aquilo mudou a sua vida. Eu me senti exatamente assim: deslumbrado diante do invisível. Eu havia encontrado esse tesouro — e estava em êxtase.

Em meio ao período cinzento, algo se abriu como um raio atravessando uma noite escura. O tempo parecia perder consistência e, com isso, a velha angústia desapareceu. As ideias passavam por mim como águas correndo num rio, e eu apenas observava, às margens, em silêncio. Sentia-me como parte do Todo; estava entregue, com a leveza de uma pluma sendo conduzida pelo vento.

Não conseguia mais ser reativo, e isso não era ruim — era maravilhoso. Saí totalmente da trincheira; não existiam mais inimigos para combater naquela guerra imaginária em que me arrastava. Pela primeira vez, vestia o branco da paz. Era como se os meus olhos estivessem enxergando novas matizes de cor. Lembrei-me do homem que Platão descreve saindo da caverna e vendo, pela primeira vez, o mundo real — estava, ao mesmo tempo, em paz e em deslumbre.

É muito difícil descrever um estado como esse: faltam palavras. Seria o mesmo que tentar explicar o que é o azul para uma pessoa cega.

Durante muitos dias, um silêncio carregado de graça me acompanhou. Ficou claro para mim que toda a realidade encontra-se no agora e que a mente se pacifica quando estamos ancorados no presente.

Estava em mim, pleno. Havia descoberto o que o amor representa. Era como se eu fosse o próprio amor. Meus gestos transformaram-se em gestos de amor. Cada movimento passou a ser feito com carinho e cuidado. Eu estava transformado. Era o meu ser em pura integração. O chão que eu pisava inconscientemente agora podia senti-lo. A minha imagem no espelho revelou uma transfiguração incomum — estava mais belo, os meus traços estavam mais harmonizados. Até hoje não consigo explicar isso.

Mas a experiência não permaneceu.

Esse estado de graça — depois de alguns dias ou semanas, cujo tempo me é impossível precisar —, assim como veio, partiu. A queda trouxe uma enorme decepção. Senti-me expulso do paraíso. Pela primeira vez, compreendi o desespero de quem contempla a liberdade por um instante e depois é devolvido ao cárcere. As angústias voltaram, os pensamentos me arrancavam novamente da presença, a escuridão voltou.

Senti que talvez ainda não merecesse permanecer naquele estado.

Lembrei-me de uma passagem do Evangelho em que o homem que participava do banquete de casamento do Rei acabou expulso por não possuir as vestes nupciais adequadas. Estava claro para mim que me faltavam tais vestes.

Voltei para a escravidão da mente. Preso no conforto anestésico dos velhos padrões, sentindo o aguilhão de antigos medos, vi-me lançado outra vez na escuridão do abismo em que sempre habitei. Os mesmos muros mentais, o velho véu que filtrava e distorcia a minha visão... Tudo ressurjia. Eu me encontrava acorrentado novamente, cumprindo a minha pena no mesmo presídio ilusório. Por dentro eu chorava — um choro silencioso que permanece até hoje. Não sei como me livrar desse pranto. Talvez nunca consiga.

Foi difícil processar aquela mudança. A sensação de um bem-estar incontaminável desapareceu, mas, ainda assim — para minha total surpresa —, algo havia mudado em minha consciência. Ter conhecido aquela realidade transformou profundamente a minha percepção. Embora estivesse com a visão embotada, alguns resíduos de lucidez permaneceram. A compreensão sobre a natureza das coisas transformara-se. O mundo tinha outra frequência. Já não conseguia mais sentir que pertencia àquele mundo, a ponto de não compreender como as pessoas ao meu redor não conseguiam perceber o que, para mim, se tornara óbvio. Isso me afastou um pouco de todos; preferia o silêncio, a solitude.

Quando lia algum texto sagrado, eu mergulhava em camadas profundas daqueles ensinamentos com uma capacidade que antes não tinha. Passei a entender com maior clareza o que grandes mestres como Buda, Jesus Cristo e Krishna queriam apontar. Conseguia enxergar além da letra morta dos textos; percebia que esses ensinamentos faziam menção, justamente, àquele estado de ser que eu havia experimentado. Aquele novo país que descobri não existe mais, mas restou uma pequena ilha onde ainda posso me recolher — essa ilha nunca desapareceu.

Concluí que já não era o mesmo — embora ainda permanecesse no cárcere. Estava claro que, para possuir esse tesouro de forma definitiva, teria de me desfazer de tudo aquilo a que me apeguei: abrir mão de sonhos, ideais e projetos futuros; enfim, de tudo o que me afastava do presente. Precisava perder a identificação com esse personagem aprisionado na ilusão do tempo, incapaz de perceber o óbvio: que as portas da própria cela estavam abertas; eu só precisava construir a determinação de atravessá-las.

O mundo nos prende através dos nossos pontos fracos; estamos sempre sendo tentados a permanecer nessa condição escrava. Quando o diabo ofereceu o mundo a Jesus, dizendo: "Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares", não era uma figura mitológica falando para uma pessoa, mas todo um sistema que tenta nos manter na ignorância do que realmente somos, nos seduzindo com coisas às quais ainda nos apegamos.

O que sempre me alentou foi entender que o tesouro da parábola do Reino sempre esteve em mim, aqui, como algo eterno e imutável. Mas era preciso, assim como Jesus exemplifica, "vender tudo" — desapegar-se daquilo que sempre teve um valor ilusório — para poder comprar esse campo e ser dono, em definitivo, desse tesouro. Encontrei um diamante nas profundezas da terra, mas, para que brilhasse, eu teria que lapidá-lo.

Naqueles dias, percebi que as dúvidas mais angustiantes desapareceram; um imenso vazio foi preenchido, não com crenças, mas com a experiência que tive. Senti que tinha uma missão. Precisava me preparar para isso. Não seria possível declinar; uma força maior me empurrava na direção desse objetivo: voltar para mim.

Por enquanto, há silêncio. Não escuto mais as velhas vozes com a mesma intensidade, embora saiba que ainda exista uma multidão dentro de mim. Pela primeira vez, sinto que assumi o comando. Essas vozes continuam presentes, teimosas, mas já não possuem a mesma força sobre as minhas escolhas. Embora eu continue sofrendo a influência daquilo que permanece mal resolvido — conteúdos afetivos, padrões antigos, ecos do passado —, ter conhecido minha Verdadeira Natureza me trouxe uma força difícil de ser vencida.

Meu mundo interno transformou-se em um palco onde personagens e enredos são representados, e olho para fora da mesma forma. Estou, sim, preso na minha própria Matrix — mas voltei transformado. Sinto-me híbrido, um pouco santo e um pouco mundano, com um pé em cada canoa. Mas tenho um objetivo claro e pretendo segui-lo.

Em um primeiro momento, tudo aquilo me pareceu um infortúnio, mas, aos poucos, compreendi o que realmente estava em jogo. Agora sei o que é a noite escura da alma. Conheço a sensação de deslocamento presente na vida de muitas pessoas. Paradoxalmente, toda aquela dor acabou sendo favorável. Desenvolvi um profundo desinteresse por muitas coisas que antes valorizava.

Adiantei processos, eliminei desejos, soltei aquilo que pesava e caminhava sem o peso inútil de muitos padrões que me foram impostos.

Agora entendo Ramakrishna quando ele dizia: "Pode o barco estar na água, mas a água não pode estar dentro do barco. Pode o homem estar no mundo, mas o mundo não deve estar dentro do homem." Senti que deveria fazer isso: passar pela experiência da vida lutando para não ser afetado por ela.

Por isso, escolho prosseguir: levantar, tomar o meu leito e andar. Não posso mais permanecer à espera do movimento das águas para ser curado. Alguma coisa me dizia que só através da ação e do movimento eu teria êxito.

Existe um tesouro escondido.

E eu finalmente descobri em que campo ele foi enterrado: dentro de mim.

Já tenho o mapa.

Agora preciso seguir.