O que é o amor? Será que entendemos com profundidade esse elemento poderoso que está na base de quase tudo aquilo que experimentamos? — Para não me arriscar dizendo tudo e provocar protestos.
Talvez tenhamos compreendido o amor de forma equivocada. Não porque desconheçamos suas manifestações, mas porque aprendemos a reconhecê-lo somente quando está associado a alguma coisa. Amamos alguém, amamos nossos filhos, nossos pais, a vida, uma ideia, Deus. A própria linguagem nos condicionou a pensar o amor como um movimento que parte de um sujeito e termina necessariamente em um objeto. Amor, portanto, tornou-se um verbo transitivo direto. Talvez isso não seja amor, mas apego, dependência ou resultado de um vício mental qualquer.
Eu amo algo. Mas e se o amor não precisar de objeto?
Essa pergunta surgiu quando comecei a investigar aquilo que aparentemente estaria no extremo oposto do amor: o ódio, o medo, a culpa, a revolta, o ressentimento. Minha primeira impressão era de que existia algo comum por trás desses conteúdos. Não se tratava simplesmente de procurar amor escondido no ódio, como se uma emoção fosse o disfarce da outra. A questão parecia mais profunda: quando seguimos regressivamente a estrutura desses sentimentos, descobrimos que eles não existem por si mesmos. Todos parecem depender de algo anterior — algo que não foi construído, elaborado, apenas existe como fundação.
O medo, por exemplo, pressupõe uma ameaça. Mas uma ameaça somente existe porque algo pode ser perdido, ferido ou destruído. E aquilo cuja perda nos ameaça necessariamente possui algum valor para nós. Tenho medo de morrer porque alguma coisa em mim afirma a vida. Tenho medo de perder alguém porque sua existência participa de alguma maneira da minha. Tenho medo da rejeição porque algo em mim deseja permanecer vinculado. Podemos chamar tudo isso simplesmente de instinto, apego ou necessidade psicológica. Mas esses nomes apenas classificam diferentes manifestações do fenômeno. Não necessariamente alcançam sua raiz.
O mesmo acontece com o ódio. Ninguém simplesmente odeia. O ódio precisa construir uma direção. Odeia-se alguém, alguma coisa, uma situação, uma ideia, às vezes a própria existência. Mesmo quando dizemos que alguém "odeia tudo", encontramos uma consciência colocada em oposição àquilo que percebe.
O ódio parece precisar de dois — mas o amor, não.
Essa diferença merece ser investigada. O ódio surge como um construto mental; o amor, como essência. Uma vez dissolvida essa construção, volta-se ao primordial, àquilo que já estava lá antes do ódio.
Quando alguém é traído e passa a odiar aquele que o traiu, o ódio aparece como conteúdo manifesto. Mas ele não estava no princípio daquela relação. Antes dele existiam confiança, expectativa, pertencimento, desejo, vínculo. Alguma coisa investida de valor foi atingida e, depois dessa ruptura, surgiu a revolta.
Isso não significa que o ódio seja amor. O amor é real; o ódio é uma ilusão construída a partir de determinados fatores ou experiências. Significa algo muito diferente: o ódio talvez seja incapaz de existir sem uma condição anterior que tenha sido ameaçada.
Podemos realizar o mesmo exercício com a culpa — que, em tese, é apenas ódio por si mesmo. Só existe culpa porque algo considerado valioso foi ferido por nós. Se absolutamente nada importasse, não haveria o que reparar. A inveja também surge como uma forma de ódio — portanto, outra ilusão. Não invejamos aquilo que consideramos absolutamente destituído de importância. O ressentimento mantém viva uma relação com alguma coisa que aconteceu e que ainda não conseguimos abandonar. O ciúme pressupõe vínculo e possibilidade de perda. A revolta exige que alguma coisa considerada importante tenha sido violada. Sempre encontramos algo anterior — e é justamente aquilo que antecede esses fenômenos que investigo.
Mas talvez o caso mais difícil seja o ódio contra si mesmo. Quando alguém diz "eu me odeio", aparentemente encontramos a negação definitiva de qualquer amor originário. Entretanto, basta observar cuidadosamente a própria frase para perceber uma estranha divisão: existe um eu que odeia e um eu que é odiado. Quem odeia quem? O sujeito tornou-se objeto de si mesmo. Em algum ponto ocorreu uma cisão.
A pessoa pode odiar o próprio corpo porque ele não corresponde ao corpo que acredita que deveria possuir. Pode odiar sua trajetória porque construiu uma expectativa da vida que deveria ter vivido. Pode odiar sua fraqueza porque aprendeu que deveria ser forte — e entrou no terreno perigoso da comparação. Pode considerar-se um fracasso porque existe dentro dela uma imagem daquilo que significaria ter sucesso. O ódio, nesse caso, aparece depois da comparação. E a comparação aparece depois da divisão.
Por isso, talvez estejamos cometendo um erro quando colocamos amor e ódio em lados opostos de uma mesma linha, como forças equivalentes:
amor — ódio.
Talvez eles sequer pertençam ao mesmo plano. O ódio precisa da separação. Precisa de alguma forma de oposição. Precisa daquele que odeia e daquilo que é odiado. Mas será que o amor possui a mesma necessidade?
Aqui encontramos uma dificuldade gigantesca, porque a palavra "amor" carrega uma curva semântica tão extensa que praticamente perdemos a capacidade de saber se estamos falando da mesma coisa quando a utilizamos. Chamamos de amor o desejo, o apego, a paixão, o carinho, o cuidado, a necessidade, a atração, a proteção, o vínculo, a sexualidade, a benevolência. E, depois de colocar fenômenos tão diferentes dentro da mesma palavra, perguntamos o que é o amor.
Talvez seja necessário fazer o movimento contrário: retirar tudo aquilo que não lhe seja essencial.
O amor precisa de desejo? Não necessariamente. Precisa de reciprocidade? Não. Precisa de posse? Não. Precisa de prazer? Também não. Precisa ser reconhecido? Não. Precisa sequer de um objeto?
Aqui começa a verdadeira questão. Talvez nossa dificuldade esteja em pensar o amor como verbo transitivo. Alguém ama alguma coisa. Há sempre sujeito, ação e objeto. Mas aquilo que estou tentando compreender talvez seja intransitivo. Não "eu amo alguma coisa". Simplesmente: há amor.
Nesse caso, aquilo que chamamos habitualmente de amor por alguém seria uma manifestação particular de algo anterior. O objeto não produziria o amor; apenas ofereceria uma forma através da qual ele pudesse manifestar-se. Isso altera completamente a investigação. O amor deixaria de ser apenas um sentimento entre outros para tornar-se uma condição do próprio ser.
E talvez até mesmo dizer "amor por si mesmo" seja inadequado, porque novamente dividimos aquilo que talvez seja indivisível. Criamos um "eu" que ama e um "mim" que recebe esse amor. Antes dessa divisão talvez exista simplesmente uma afirmação: o ser afirma o ser.
Isso pode ser observado até naquilo que chamamos de instinto de preservação. Diante de uma ameaça, a vida procura continuar. Normalmente encerramos a questão dizendo tratar-se de um instinto. Mas dar um nome ao fenômeno não elimina a pergunta. Por que existe esse movimento de conservação? Por que aquilo que vive procura permanecer vivendo? Talvez não devamos chamar imediatamente essa força de amor — fazer isso seria resolver a investigação por definição. Mas também não deveríamos deixar de perguntar se existe alguma estrutura comum entre conservação, integração, pertencimento, vínculo e aquilo que, em sua manifestação consciente, chamamos de amor.
A investigação precisa prosseguir justamente aí.
Talvez possamos fazer uma experiência conceitual. Retiremos do ódio a memória da ofensa. Retiremos a ameaça. Retiremos aquele contra quem se luta. Retiremos o julgamento. Retiremos a comparação. Retiremos a oposição. Retiremos, finalmente, a própria separação. O que sobra do ódio? Provavelmente nada. O ódio precisa dessas estruturas para existir.
Façamos agora a mesma operação com o amor. Retiremos a posse. Retiremos a expectativa. Retiremos a reciprocidade. Retiremos o desejo. Retiremos o reconhecimento. Retiremos a necessidade de receber alguma coisa. Retiremos até mesmo o objeto. O amor necessariamente desaparece? Talvez não. E, se não desaparece, encontramos uma assimetria fundamental: o ódio necessita de condições. O amor talvez seja anterior a elas.
Nesse sentido, dizer que "o amor está por trás do ódio" ainda seria impreciso. Não existe necessariamente um pequeno núcleo amoroso escondido dentro de cada sentimento destrutivo. A hipótese é outra: o amor seria anterior à própria possibilidade do ódio. Primeiro existe alguma forma de afirmação, integração ou unidade. Somente depois da separação pode existir aquilo que ameaça, aquilo que é ameaçado e aquele que precisa defender-se. É nesse território que surgem medo, agressividade, revolta e ódio.
A sequência, portanto, talvez não seja:
amor versus ódio.
Talvez seja:
unidade → cisão → oposição → ameaça → defesa → medo → agressividade → ódio.
Se isso estiver correto, combater o ódio diretamente seria ocupar-se do último estágio de um processo muito mais profundo. Precisaríamos investigar a cisão que tornou aquele ódio possível.
E talvez isso explique também por que o amor não pode ser produzido pela vontade. Podemos praticar atos amorosos, controlar comportamentos, exercitar tolerância, disciplinar nossa agressividade. Mas talvez não possamos fabricar aquilo que já constitui nossa condição anterior à divisão. Talvez o trabalho seja outro: retirar aquilo que impede sua manifestação.
Essa hipótese ainda precisa enfrentar seus casos mais difíceis: crueldade, sadismo, destrutividade aparentemente gratuita, violência, desejo deliberado de causar sofrimento. Não devemos fugir desses fenômenos nem acomodá-los artificialmente à tese. Pelo contrário: são exatamente eles que precisam colocá-la à prova. Diante de cada um deles, a pergunta deverá ser a mesma: existe ódio ou destrutividade que não pressuponha nenhuma cisão anterior? Se encontrarmos um único caso verdadeiramente originário, talvez seja necessário rever toda a hipótese.
Mas se, ao investigarmos cada conteúdo destrutivo até suas últimas consequências, encontrarmos invariavelmente alguma estrutura anterior de separação, ameaça, defesa, frustração ou perda, teremos que considerar seriamente outra possibilidade: talvez aquilo que chamamos de maldade, ódio e destrutividade não possua a mesma natureza originária daquilo que chamamos de amor.
Talvez tenhamos cometido durante muito tempo um erro elementar ao considerá-los opostos.
O contrário do amor talvez não seja o ódio.
Talvez seja a cisão.
Porque somente depois dela pode existir um "eu" suficientemente separado para olhar aquilo que está diante de si e dizer: isso não sou eu.
E talvez o amor seja justamente aquilo que existe antes dessa frase.
Transconhecimento
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