Deixe o rio correr. Solte-se em sua correnteza. Não queira nada na direção contrária, nem tente apressá-lo. Está na hora de perceber que uma vida de plenitude consiste nisso: aceitar o movimento natural desse rio e permitir que a vida se desenrole no tempo certo. Aceite e seja feliz.
Os problemas desaparecem através da aceitação. E crescem, ganham complexidade e se enraízam quando não são aceitos. A não aceitação é uma transgressão ao movimento natural da vida. Enquanto a vida corre, você permanece ancorado, preso em um looping de revolta e aversão.
A aceitação é a fórmula para todo o processo alquímico da alma. Sem ela, a vida para — como um rio represado, sem movimento, sem renovação, apodrecendo em sua própria estagnação. Não é saudável; na verdade, é uma atitude insensata. Deixe para lá o que passou. Receba isso como um conselho: ao permanecer preso ao que já aconteceu, você está conspirando contra si mesmo.
O ódio, a revolta, a indignação, o desespero, a ansiedade — tudo aquilo que não presta, que traz doenças e desequilíbrios — são mazelas que resultam da nossa falta de rendição. A resistência é a raiz do sofrimento. Sempre foi. Sempre será.
Aceitar implica não transformar os acontecimentos em problemas. Quando aquilo que acontece é encarado como uma experiência de vida ou tratado como aprendizado para o nosso crescimento, nossa visão sofre uma profunda mudança. Já não haverá os mesmos motivos para nos sentirmos afetados. A ofensa permanece, mas a ferida se fecha.
Aceitar não significa permanecer imóvel diante daquilo que acontece; significa não desperdiçar energia negando aquilo que já aconteceu. A ação continuará sendo possível sempre que necessária, mas será uma ação sem revolta contra a realidade. Uma ação que não luta contra o rio, mas rema com ele.
Quando aceitamos as proposições da vida, estamos dando um testemunho de nossa fé — não fé em dogmas, mas fé na própria existência. Dizemos ao Universo, a Deus, ao que quer que seja: aceito seu comando. Não vou lutar contra aquilo que a Vida me propõe.
Essa é a essência do Wu Wei: agir sem violentar o fluxo natural das coisas. Não agir como se o mundo precisasse ser forçado, mas como se o mundo já estivesse em movimento — e eu, parte desse movimento. Quando, influenciados por nossos desejos, decidimos assumir o controle e conduzir a vida sob a orientação de nossos instintos mais primitivos, quase sempre nos prejudicamos. O controle é uma ilusão. A rendição, uma liberdade.
É necessário aceitar as pessoas como são, sem julgamentos ou preconceitos, ampliando nossa compreensão sobre os outros e sobre o mundo. Tentar mudar alguém à força — como Procusto em sua cama de tortura, esticando ou cortando o visitante para caber em seu leito — é uma estupidez. Ninguém pode mudar outra pessoa. As transformações ocorrem naturalmente em cada indivíduo, e o próprio Universo cuida disso. Tentar interferir nesse processo é como querer apressar o amadurecimento de uma fruta: você só a estraga. Nossa tarefa, como seres civilizados, é aceitar os outros no estágio em que se encontram — e, se possível, amar.
Egoístas que somos, procuramos sempre aqueles que possam nos espelhar e corresponder às nossas expectativas. Buscamos, como tolos, o pássaro azul da felicidade pelo mundo afora, sem perceber que ele canta dentro do nosso próprio ser. A felicidade não é uma caça; é um reconhecimento.
É preciso, como nos ensinou nossa querida roqueira Rita Lee, deitar no colo da Mãe Natureza e permitir que ela tome conta de nossas cabeças. Essa, sim, é uma atitude de profunda sabedoria. Não é fraqueza. É inteligência.
Essa rendição só é possível quando deixamos de lutar, quando entendemos que a vida não é um ringue, quando soltamos conceitos ultrapassados e saímos das trincheiras ideológicas em que nos encontramos. Só assim deixaremos de problematizar tudo.
O problema só existe porque foi problematizado. Isso não parece óbvio? A realidade acontece — mas somos nós que acrescentamos resistência, revolta, julgamento e aversão. Tentamos colocar a vida em nossa própria cama de Procusto, exigindo que ela tenha a medida dos nossos desejos, quando talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente em permitir que o rio continue correndo.
Só através de uma profunda desconstrução dos vícios mentais que desenvolvemos a partir de uma visão equivocada da vida poderemos abrir espaço para aquilo que existe de mais essencial em nós: o amor. E, nesse amor, a correnteza nos leva para onde sempre deveríamos ter estado.
Transconhecimento
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