“O Tao que pode ser expresso não é o Tao eterno.” — Lao-Tsé

Tenho refletido profundamente sobre essa afirmação de Lao-Tsé. Ela me confronta com uma verdade desconcertante: o que muitos tentam definir como Deus é, na verdade, apenas uma projeção limitada da mente humana — e não o verdadeiro Mistério que sustenta todas as coisas.

Hoje, percebo que qualquer tentativa de explicar Deus, de conceituar o Infinito com palavras finitas, revela mais os limites daquele que explica do que a natureza daquilo que pretende explicar. Como ousamos definir aquilo que está infinitamente além das nossas capacidades cognitivas? Ouvir discursos humanos tentando descrever Deus soa, para mim, tão absurdo quanto imaginar um cego de nascença tentando explicar, a partir da própria experiência, a cor amarela. Ele pode conhecer teorias sobre a luz, compreender frequências e aprender tudo o que os outros dizem sobre as cores, mas jamais experimentou o amarelo. Talvez façamos exatamente isso com Deus: acumulamos conhecimentos sobre aquilo que nunca conhecemos verdadeiramente. E onde falta compreensão genuína, sobram doutrinas, dogmas, rótulos — e, infelizmente, até manipulações políticas em nome do sagrado.

É urgente que despertemos. Não que abandonemos a mente, mas que reconheçamos os seus limites e paremos de tratá-la como instrumento capaz de apreender aquilo que a transcende. Nos limites do pensamento racional, tudo o que encontramos são representações, suposições, crenças e especulações. Podemos construir sistemas teológicos extraordinariamente sofisticados, mas nenhum conceito acerca de Deus pode ser confundido com Deus. Talvez a verdade mais honesta que possamos admitir seja esta: não sabemos o que Deus é.

O que podemos, sim, é observar e tentar compreender as Leis e Princípios inteligentes que regem a Natureza — ou seja, aquilo que se manifesta diante de nós, jamais a Causa Primordial que eventualmente lhe dá origem. No ponto evolutivo em que nos encontramos, talvez o mais sábio seja abandonar de vez a ideia infantil de um Deus-personagem, separado de nós, sentado num trono, julgando e castigando criaturas que Ele mesmo teria criado.

Vejo que algumas correntes do pensamento oriental avançaram muito nessa compreensão, talvez porque tenham preservado com maior força a ideia do Absoluto como algo que não pode ser reduzido a uma entidade separada da existência. Isso não significa que o Oriente esteja livre de dogmas, superstições ou antropomorfismos. Não está. Tanto lá quanto cá encontramos religiões e seitas que privilegiam as formas em detrimento da profundidade original de suas escrituras. O problema começa quando o símbolo deixa de apontar para o Mistério e passa a ocupar o seu lugar.

Em várias tradições orientais, aquilo que chamamos Deus não aparece necessariamente como uma figura antropomórfica, mas como o Todo, o Absoluto, aquilo que se manifesta em tudo o que existe. Mesmo isso, reconheço, ainda é uma definição — e toda definição estabelece limites. Por isso, quando digo que Deus não é um juiz, mas simplesmente É, não pretendo explicar Deus. Estou apenas tentando retirar d'Ele algumas das características humanas que nós mesmos lhe atribuímos.

A tradição religiosa ocidental, especialmente em suas manifestações mais populares, herdou e preservou muitas imagens antropomórficas do divino: um Deus que se irrita, pune, recompensa, prefere, escolhe, condena e se ofende. Mas o próprio Ocidente produziu místicos que perceberam os limites dessas imagens. João da Cruz, Mestre Eckhart e tantos outros tocaram, cada um à sua maneira, essa região onde as palavras começam a perder a utilidade. O mesmo ocorreu entre os sufis, dentro da tradição islâmica.

Talvez esse seja o ponto em que todas as tradições profundas acabam se encontrando: chega um momento em que o pensamento precisa reconhecer sua própria insuficiência.

Deus não pode ser reduzido a imagem alguma. Não pode ser aprisionado em palavras, conceitos ou doutrinas. No instante em que afirmamos tê-Lo compreendido, talvez estejamos falando apenas de uma construção da nossa própria mente. O Insondável que se pode sondar deixa de ser insondável. Simples assim.

Acredito que, no dia em que o ser humano aprender verdadeiramente a ser, começará a realizar Deus em si mesmo — e digo isso sem pretender definir nada. Amor, paz, beleza, compaixão, equilíbrio: talvez sejam expressões da nossa natureza mais profunda. Não sei se são atributos de Deus e nem pretendo afirmá-lo. Mas talvez seja por esse caminho, não pela explicação, mas pela experiência, que possamos nos aproximar daquilo que há milênios tentamos inutilmente compreender.

Grandes Mestres falaram de Deus como sendo tudo, inclusive o próprio homem. Isso também é uma forma de defini-Lo, e por isso permaneço desconfiado até mesmo dessas afirmações. Afinal, se Deus é realmente o Absoluto, qualquer frase que comece com “Deus é...” já corre o risco de reduzi-Lo ao tamanho da nossa compreensão.

Por isso, parei de tentar compreender Deus.

Há muitos apontando para a lua — não sei se é a lua certa, nem se posso confiar nesses dedos. Religiões apontam. Escrituras apontam. Mestres apontam. Filósofos apontam. Talvez alguns tenham visto aquilo para onde apontam; talvez outros apenas repitam gestos que aprenderam de quem veio antes. Eu não tenho como saber.

Resta-me, então, aquilo que posso experimentar diretamente.

Talvez Deus não possa ser conhecido como conhecemos um objeto, justamente porque não está diante de nós como algo separado. Talvez a própria tentativa de encontrá-Lo fora seja o primeiro equívoco. Se existe alguma possibilidade de conhecer aquilo que chamamos Deus, talvez ela não esteja em compreendê-Lo, mas em realizá-Lo.

A verdade mais acessível que posso acolher hoje, no estágio ainda primitivo de consciência em que me encontro — assim como, acredito, grande parte da humanidade — é esta:

eu sou o único Deus que, por enquanto, posso conhecer.