Se existe um Lobo Mau, significa que devem existir lobos bons.
Talvez o lobo bom seja vegetariano, sem os caninos proeminentes comuns aos lobos, sem a boca grande, sem as garras afiadas. Um lobo educado, que não uiva alto, não saliva em excesso e jamais ameaça ninguém. Enfim, um lobo devidamente ajustado aos nossos padrões, domesticado pelas nossas expectativas e incapaz de nos incomodar.
Mas lobos não são bons nem maus.
Lobos são lobos.
A prepotência humana leva o homem a julgar e classificar todas as coisas. Incapaz de conviver com aquilo que não corresponde às suas expectativas, frágil diante do diferente e desconfortável com tudo aquilo que não espelha a sua própria natureza, ele trata de colocar etiquetas no mundo.
Isso é bom.
Aquilo é mau.
Isso pode existir.
Aquilo precisa desaparecer.
Aprendemos desde cedo que o lobo é perverso porque quer comer a Chapeuzinho Vermelho e, sem perceber, assimilamos através da fábula uma das estruturas mais antigas do pensamento humano: de um lado está o Bem; do outro, o Mal. De um lado, a inocente menina; do outro, a fera perversa.
Mas será mesmo?
Talvez esteja na hora de relermos a história.
Seria o lobo mau ou seria Chapeuzinho uma criança displicente, incapaz de compreender que animais selvagens possuem territórios, instintos e comportamentos próprios? Será que uma escritura de cartório da casa da vovozinha seria suficiente para destituir os verdadeiros habitantes daquele espaço? Será que, ao andar pela estrada afora, tão sozinha, ela não estava se expondo aos riscos naturais de atravessar um ambiente ocupado por animais que estão no topo da cadeia alimentar?
Seria o lobo tão mau assim?
Ou será que exigimos do lobo que deixe de ser lobo para que possamos considerá-lo bom?
O problema começa justamente aí.
O homem não se limita a dizer: “isso representa um perigo para mim”.
Ele diz:
“Isso é mau.”
A primeira afirmação reconhece uma relação. A segunda pretende definir a natureza do outro.
É essa pretensão que precisamos questionar.
Bem e mal não precisam ser compreendidos como propriedades absolutas existentes nas coisas. Aquilo que favorece um organismo pode destruir outro; aquilo que alimenta uma espécie pode representar a morte de outra. A natureza não consulta nossas categorias morais antes de realizar seus movimentos.
O leão mata a gazela.
A aranha aprisiona a mosca.
O tubarão devora o peixe.
Nenhum deles precisa ser absolvido.
Nenhum deles está sendo julgado.
A natureza simplesmente acontece.
Isso não significa, entretanto, que devamos abandonar o discernimento, a responsabilidade ou a justiça. Não existem seres essencialmente bons ou maus, mas existem atos que produzem sofrimento, destruição, violência e consequências. Compreender a natureza de alguém não significa permitir que essa natureza nos destrua.
Não odiar o lobo não significa entrar em sua toca.
Não condenar o escorpião não significa colocá-lo nas costas.
A conhecida fábula do escorpião e da rã nos oferece justamente essa lição. O escorpião pede ajuda para atravessar o rio e promete não picar a rã. No meio da travessia, porém, ele a pica. Diante do espanto da rã, resta a constatação: aquela era a sua natureza.
Podemos discutir a moral da história, mas existe ali uma verdade importante: compreender não significa tornar-se ingênuo.
O escorpião não precisa ser odiado por possuir ferrão.
Mas a rã precisa saber com quem está atravessando o rio.
Como já estamos bastante crescidinhos, talvez alguns valores e conceitos precisem ser revistos. O homem precisa avançar e deixar de reproduzir cegamente os dualismos que recebeu de seus antepassados, como se a realidade inteira pudesse ser dividida entre mocinhos e bandidos.
O mundo é muito mais complexo.
Existe unidade, mas existe diversidade. Existem forças diferentes, naturezas diferentes, interesses diferentes e maneiras completamente distintas de experimentar a existência. Desenvolver a consciência talvez seja justamente adquirir a capacidade de conviver com essas diferenças sem precisar exterminá-las.
Não estamos aqui para destruir aquilo que classificamos como mal.
Estamos aqui para compreender, integrar e harmonizar.
Isso vale para o mundo e vale principalmente para nós mesmos.
Temos uma sombra.
Carregamos impulsos, desejos, medos, ressentimentos, agressividade e contradições que frequentemente não queremos reconhecer. Quando não conseguimos suportar determinadas características dentro de nós, existe uma enorme tentação de procurá-las do lado de fora.
E então encontramos o nosso lobo.
Aquilo que recusamos reconhecer em nós aparece monstruosamente no outro.
O outro torna-se agressivo, perverso, egoísta, impuro, perigoso. Colocamos nele tudo aquilo que nossa imagem idealizada de nós mesmos não consegue admitir.
E depois lutamos contra ele.
Talvez muitas das guerras exteriores comecem exatamente dessa maneira: primeiro criamos um monstro; depois consideramos legítimo destruí-lo.
A política está repleta desse mecanismo.
George W. Bush, por exemplo, chegou a utilizar a expressão “eixo do mal” para designar determinados países. A estrutura psicológica é assustadoramente familiar: existem os bons e existem os maus; nós estamos de um lado e eles estão do outro.
Uma vez identificado o Lobo Mau, sua destruição deixa de parecer violência.
Passa a parecer virtude.
É justamente aí que o pensamento dualista se torna perigoso.
Não precisamos transformar alguém na encarnação do Mal para reconhecer que determinados atos precisam ser impedidos. Podemos proteger, estabelecer limites, responsabilizar e até mesmo afastar alguém do convívio social sem transformar esse indivíduo numa entidade metafisicamente maligna.
Uma coisa é julgar um ato.
Outra é condenar ontologicamente um ser.
Talvez precisemos aprender essa diferença.
Cada ser vivo expressa uma natureza particular, vive dentro de determinadas condições e percebe o mundo através de suas próprias possibilidades. O verdadeiro desenvolvimento não deveria produzir arrogância, mas compreensão. Quanto maior a consciência, menor deveria ser a necessidade de oprimir, escravizar ou destruir aquilo que é diferente.
Isso exige respeito pelo semelhante.
Mais do que isso: exige respeito pela própria vida.
Precisamos abandonar a velha mania de enxergar tudo aquilo que existe apenas como objeto disponível aos nossos desejos. A floresta não existe para nós. O rio não existe para nós. O animal não existe para nós. A existência não recebeu a obrigação de se adaptar às nossas conveniências.
Nós fazemos parte dela.
Talvez esse seja um dos grandes equívocos humanos: acreditamos estar olhando para o mundo quando, muitas vezes, estamos olhando apenas para nossas próprias projeções.
Queremos que o lobo seja dócil.
Queremos que o escorpião não pique.
Queremos que o mar não tenha ondas.
Queremos que a morte não exista.
Queremos que a natureza obedeça aos nossos conceitos de justiça.
E, quando ela não obedece, chamamos aquilo de mal.
Mas o Universo nunca assinou esse contrato conosco.
Estamos vivendo um momento em que precisamos recuperar uma visão mais orgânica e integrativa da existência. Não podemos continuar destruindo uns aos outros sob o guante de uma pretensa superioridade moral, como se alguns fossem proprietários exclusivos da verdade enquanto outros representassem tudo aquilo que precisa ser eliminado.
Somos diferentes, mas pertencemos à mesma realidade.
Talvez tenhamos inventado o Lobo Mau porque precisávamos colocar em algum lugar aquilo que não suportávamos reconhecer em nós mesmos.
O lobo, entretanto, não precisa de nossa absolvição.
Não precisa tornar-se vegetariano.
Não precisa esconder os dentes.
Não precisa cortar as garras.
Não precisa parar de uivar.
Não precisa tornar-se parecido conosco para merecer existir.
Precisa apenas ser lobo.
Nós é que precisamos aprender a olhar para ele sem transformar diferença em perversidade, perigo em maldade e medo em sentença moral.
O lobo nunca disse que era mau.
Fomos nós que contamos essa história.
Acreditem, Lobo Mau não existe.
Transconhecimento
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