O homem deve buscar a consciência de si mesmo e permanecer consciente. Esse é o ponto de inflexão, pois, estando em si, todas as respostas virão. Tudo aquilo que ele anseia, mesmo que não tenha consciência disso, é justamente encontrar a resposta para uma única pergunta: “Quem sou eu?”
Talvez essa pergunta nem precise ser respondida, pois qualquer resposta será novamente um conceito, uma construção da mente. Dizer “sou Consciência”, “sou Deus”, “sou o Universo” ainda é dizer alguma coisa sobre aquilo que não pode ser confinado pela linguagem. A pergunta “Quem sou eu?” serve, antes de tudo, para eliminar aquilo que não somos.
Outras perguntas, como “De onde eu vim?”, “Para onde eu vou?”, “O que é a vida?”, perderão importância, pois estar focado em si é o primeiro passo, aquele que abrirá as portas da percepção. Quando o homem descobrir quem pergunta, talvez não precise mais encontrar respostas.
Você nunca encontrará o Si Mesmo, porque é o Si Mesmo que está procurando.
A Consciência é tudo. A Consciência é o próprio Eu. Grandes mitos da história da humanidade podem ser compreendidos como representações simbólicas dessa busca pelo Si Mesmo: o Velo de Ouro de Jasão, a Ítaca de Odisseu, o Graal de Percival, os trabalhos de Hércules e tantos outros.
O herói de cada mito é uma representação do próprio ser humano. Preso na ignorância de si mesmo, toda uma saga de lutas e enfrentamentos se apresenta. Assim vivemos a vida: lutando com todas as nossas forças para sair dessa prisão imaginária, dissolver as trevas que nos envolvem e emergir para a luz da Realidade.
Nunca foi uma questão de bem e mal, mas de conhecimento e ignorância.
Uma vez que a luz surge, toda a escuridão desaparece. O mal é apenas ausência de luz. Ele não é uma entidade, não possui existência própria, não tem poder sobre a Realidade. Seu império só consegue se estabelecer através da ignorância. A escuridão não precisa ser derrotada. Basta acender a luz.
Quando o ser humano encontra o Si Mesmo, as construções da mente começam a ruir. A culpa, os medos, os desejos, as angústias e toda a carga acumulada pelo personagem perdem sustentação, pois a escuridão não pode lutar contra a luz.
O Sol jamais poderá conhecer a escuridão.
Imagine uma caverna escura que nunca recebeu a luz do Sol. No momento em que uma fresta se abre e a luz penetra, automaticamente aquele ambiente se ilumina. Não há resistência, não há luta, não existe uma batalha entre duas forças. A escuridão simplesmente desaparece porque nunca possuiu existência própria.
O mesmo acontece conosco.
O sofrimento é ausência de consciência de si mesmo. A dor pode alcançar o corpo, mas o sofrimento precisa primeiro convencer você de que é o personagem. É o personagem que teme, que se ofende, que se culpa, que se sente diminuído, abandonado, injustiçado. No momento em que há um claro entendimento daquilo que somos, algo se ilumina.
Isso é iluminação. Nada mais.
Iluminação é acender essa luz, e o interruptor está dentro, não fora. É preciso ficar quieto, observar os processos mentais sem se envolver com eles, permanecer como espectador e perder, aos poucos, o interesse pelas inúmeras janelas abertas pelo pensamento.
Só a prática constante, a sadhana, poderá aprofundar esse estado. Para isso, é necessário querer seguir por essa senda. Como Jasão, Hércules, Percival, Teseu, Perseu e tantos outros heróis, será preciso disposição para enfrentar os dragões, os minotauros e as medusas da própria alma.
Mas existe uma diferença fundamental: os monstros não precisam ser mortos. Precisam ser conhecidos. Aquilo que é iluminado deixa de governar através da escuridão.
As grades dessa prisão nunca estiveram fechadas. O problema é que nos acostumamos tanto com o cárcere ilusório em que vivemos que já não desenvolvemos interesse em sair dele.
Passamos a vida procurando a chave de uma porta que nunca esteve trancada.
O mito da caverna de Platão é uma poderosa representação desse estado em que a maioria dos seres humanos se encontra. Aqueles que nunca se libertaram da realidade da caverna não conseguem conceber outro mundo. Acostumaram-se às sombras, deram nomes a elas, criaram conceitos, disputaram entre si sobre seus significados e terminaram convencidos de que aquilo era tudo o que existia.
O homem fez exatamente isso.
Acostumou-se a viver dentro dos limites de um aquário e esqueceu-se completamente do oceano. Busca felicidade adaptando-se a esse mundinho estreito e tenta realizar-se dentro dele. Decora o aquário, acumula coisas, disputa espaço com os outros peixes, procura uma posição melhor e chama tudo isso de realização.
Não percebe que precisa apenas abrir a porta dessa cela, perder o interesse por aquilo que aprendeu a valorizar, desapegar-se das falsas necessidades e sair.
Mas até dizer “sair” talvez seja um equívoco.
Sair para onde?
Como pode o peixe sair em busca do oceano?
Como pode a onda procurar o mar?
Como pode a Consciência procurar a Consciência?
A sua Verdadeira Natureza não pode estar restrita ou limitada. Não existe lugar algum para chegar. O Universo não é algo que está fora e que um dia poderá ser conquistado.
O Universo não é seu.
Você é o próprio Universo.
As grades nunca estiveram fechadas. O oceano nunca esteve distante. Talvez toda a nossa busca tenha começado com um único equívoco: acreditar que algum dia estivemos separados daquilo que somos.
Nunca estivemos.
Talvez ninguém tenha saído de casa.
Apenas sonhamos que estávamos longe.
Transconhecimento
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