A mente humana possui uma extraordinária capacidade de transitar por lugares que não existem. Pode retornar a uma conversa ocorrida há vinte anos, reconstruir uma ofensa, modificar detalhes, imaginar respostas que não foram dadas e experimentar novamente emoções relacionadas a um acontecimento que desapareceu há muito tempo. Da mesma forma, consegue projetar-se dez anos à frente, construir cenários, antecipar perdas, imaginar doenças, fracassos, separações e catástrofes que talvez jamais aconteçam. Passado e futuro possuem uma realidade psicológica impressionante, mas há uma pergunta que raramente fazemos: onde estão?
O passado já não existe como acontecimento. Existem registros, consequências, fotografias, documentos, cicatrizes e, principalmente, memória, mas o acontecimento propriamente dito desapareceu. O futuro tampouco existe como acontecimento. Existem projetos, probabilidades, expectativas, cálculos e possibilidades, mas aquilo que chamamos de futuro ainda não aconteceu. Curiosamente, quando recordamos o passado, fazemos isso agora; quando imaginamos o futuro, também fazemos isso agora. Nunca encontramos outro lugar onde a experiência possa acontecer. Mesmo que pudéssemos viajar para amanhã, ao chegarmos lá não encontraríamos o futuro. Encontraríamos novamente o presente.
A mente, entretanto, consegue transformar essas duas abstrações em lugares psicológicos e fazer com que passemos grande parte da existência vivendo neles. Esse é um de seus maiores poderes. Ela cria cenários, personagens e enredos com tamanha riqueza que conseguimos sofrer diante de acontecimentos que já não existem e tremer diante de acontecimentos que ainda não existem. O problema não está na mente. Precisamos da memória para viver, assim como precisamos projetar acontecimentos futuros, planejar, calcular riscos e organizar a existência. O problema começa quando passado e futuro deixam de ser ferramentas e tornam-se nossa moradia.
Existe uma diferença enorme entre consultar o passado e viver nele, assim como existe uma diferença entre planejar o futuro e viver nele. Posso lembrar onde estacionei o carro sem transformar aquela lembrança numa identidade. Posso planejar aquilo que farei amanhã sem abandonar psicologicamente o presente. A mente é uma ferramenta extraordinária quando ocupa seu lugar; torna-se uma grande ilusionista quando esquecemos que suas representações são representações e passamos a habitá-las como se fossem o Real.
Talvez possamos compreender melhor esse mecanismo observando duas emoções fundamentais: a raiva e o medo. A raiva possui uma relação profunda com o passado porque necessita de alguma coisa contra a qual se revoltar. Algo aconteceu, alguém disse, alguém fez, alguma expectativa foi frustrada, alguma realidade contrariou aquilo que desejávamos. Mesmo quando a raiva parece acontecer no instante presente, existe nela um movimento extraordinariamente rápido: alguma coisa acaba de acontecer e a mente imediatamente registra que aquilo não deveria ter acontecido. A raiva é, nesse sentido, uma revolta contra aquilo que já foi.
Sua frase fundamental poderia ser esta: “Isso não deveria ter acontecido.” O acontecimento já aconteceu, mas a mente recusa-se a permitir que ele termine. Reconstrói a cena, repete palavras, recupera imagens, alimenta justificativas e mantém psicologicamente vivo aquilo que a própria realidade já encerrou. O fato aconteceu uma vez; podemos fazê-lo acontecer milhares de vezes dentro de nós. É dessa repetição que muitos ressentimentos retiram sua extraordinária capacidade de sobreviver ao tempo. Algumas pessoas carregam durante décadas acontecimentos que duraram poucos minutos.
As tradições indianas utilizaram a ideia de samskaras para falar das impressões deixadas pela experiência e de sua capacidade de condicionar pensamentos, tendências e comportamentos posteriores. Não precisamos transformar esse conceito numa explicação simplista do inconsciente, mas ele oferece uma imagem interessante: aquilo que aconteceu deixa marcas, e essas marcas podem continuar interferindo na maneira como percebemos aquilo que acontece agora. O passado terminou como acontecimento, mas pode continuar existindo como condicionamento.
É justamente aí que o personagem encontra uma de suas maiores fontes de identidade. Pergunte a alguém quem ele é e provavelmente receberá uma narrativa construída quase inteiramente com elementos do passado: nome, família, profissão, relacionamentos, conquistas, perdas, humilhações, sucessos, traumas, crenças, preferências. Precisamos dessas referências para funcionar socialmente, mas talvez cometamos um erro extraordinário quando confundimos essa biografia com aquilo que somos. Chamamos de “eu” uma coleção de acontecimentos que já não existem.
O medo realiza o movimento contrário. Se a raiva olha para aquilo que aconteceu e diz “isso não deveria ter acontecido”, o medo olha para aquilo que ainda não aconteceu e diz “isso não pode acontecer”. Por isso considero que o medo pertence sempre ao futuro. Mesmo quando o perigo está diante de nós, aquilo que tememos ainda não aconteceu. Um animal pode estar diante de mim agora; o perigo é presente, mas o medo projeta aquilo que acontecerá no instante seguinte: ele poderá atacar, poderei ser ferido, poderei morrer. O organismo pode reagir imediatamente ao perigo, recuar, defender-se ou correr. Essa resposta acontece no presente. O medo psicológico, entretanto, necessita de um depois.
O perigo pode estar no presente. O medo está no futuro.
Mesmo quando o medo nasce de alguma coisa ocorrida no passado, sua estrutura permanece voltada para aquilo que poderá acontecer. Uma pessoa que sofreu determinada violência pode recordar a experiência, mas o medo presente não é de que aquilo tenha acontecido — porque já aconteceu. É de que aconteça novamente. O passado fornece a memória; a mente utiliza essa memória para projetar o futuro. O medo é sentido agora, evidentemente, inclusive no corpo, mas aquilo que ele teme encontra-se sempre adiante.
É justamente por isso que podemos sofrer terrivelmente diante de acontecimentos inexistentes. Uma pessoa pode estar deitada em segurança numa cama e sentir o coração acelerar imaginando uma doença que ainda não foi diagnosticada, uma falência que ainda não aconteceu, uma pessoa que ainda não partiu ou uma tragédia que talvez jamais aconteça. O corpo sofre agora por uma história construída sobre o depois. A mente não precisa que o acontecimento exista para produzir medo; precisa apenas que consigamos acreditar suficientemente na possibilidade de que ele venha a existir.
Passado e futuro tornam-se, assim, os dois grandes territórios psicológicos do personagem. No passado ele encontra aquilo que acredita ter sido; no futuro, aquilo que deseja ou teme tornar-se. O passado fornece identidade, o futuro fornece continuidade. Um diz “eu fui”; o outro diz “eu serei”. Entre os dois encontra-se algo profundamente desconcertante: aquilo que simplesmente é.
Talvez seja justamente por isso que o presente represente uma ameaça tão grande ao personagem. No Agora não existe tempo suficiente para reconstruir uma biografia nem para realizar um projeto de identidade. Existe apenas aquilo que acontece. O personagem precisa da memória para explicar quem é e do futuro para imaginar quem ainda poderá tornar-se. Retire psicologicamente essas duas dimensões, ainda que por um instante, e surge uma pergunta perturbadora: quem sou eu sem minha história e sem aquilo que pretendo ser?
Isso não significa apagar a memória, abandonar projetos ou viver sem planejamento. Seria absurdo. O tempo cronológico é indispensável à existência humana. Marcamos compromissos, aprendemos com acontecimentos passados, fazemos investimentos, construímos casas, planejamos viagens e cuidamos do futuro. O problema não está no relógio nem no calendário. O problema é o tempo psicológico: utilizar aquilo que já não existe e aquilo que ainda não existe para construir continuamente aquilo que acreditamos ser.
Também não devemos imaginar que a mente nos retira do presente apenas através do sofrimento. Ela é muito mais sofisticada. O passado pode nos aprisionar através da nostalgia tanto quanto através do ressentimento. A mente diz “como era bom” e transforma aquilo que passou numa medida contra a qual o presente sempre parecerá insuficiente. O futuro, da mesma maneira, não nos captura apenas pelo medo; captura-nos pelo desejo. “Quando isso acontecer, finalmente estarei bem.” Quando eu conseguir, quando encontrar, quando ganhar, quando chegar, quando me tornar. O medo diz que alguma coisa terrível poderá acontecer; o desejo promete que alguma coisa maravilhosa precisa acontecer. Ambos exigem o futuro.
É aí que o sofrimento assume formas aparentemente opostas, mas estruturalmente semelhantes. Podemos fugir do futuro porque tememos aquilo que ele poderá trazer ou correr desesperadamente em sua direção porque esperamos que finalmente nos complete. Em ambos os casos, abandonamos aquilo que está diante de nós em nome daquilo que ainda não existe. O personagem oscila entre a memória daquilo que perdeu e a promessa daquilo que espera conquistar, transformando a existência numa espécie de sala de espera.
Talvez por isso seja equivocado dividir emoções entre nobres e inferiores, positivas e negativas, como fiz durante muito tempo. Raiva, medo, tristeza, alegria, desejo e saudade fazem parte da experiência humana. Não precisamos travar uma guerra contra elas. O problema começa quando aquilo que sentimos deixa de ser uma experiência passageira e torna-se uma identidade. Sentimos raiva e dizemos “sou uma pessoa revoltada”; sentimos medo e passamos a organizar a existência em torno daquilo que tememos; sofremos uma perda e transformamos o acontecimento numa definição permanente de quem somos. O sentimento passa. O personagem tenta conservá-lo porque consegue utilizá-lo para contar sua história.
A Vida, entretanto, não acontece na história.
A Vida acontece aqui.
Não existe outro lugar onde alguma coisa possa acontecer. O passado, quando recordado, aparece agora. O futuro, quando imaginado, aparece agora. Uma memória surge no presente. Uma expectativa surge no presente. Um medo é sentido no presente, embora aponte para o futuro. Uma raiva é sentida no presente, embora se alimente da recusa daquilo que acaba de acontecer. Tudo desemboca inevitavelmente no único lugar do qual nunca conseguimos sair.
Aqui.
Talvez seja por isso que a expressão “viver no presente” seja também perigosa quando transformada em objetivo espiritual. No momento em que digo “preciso aprender a viver no presente”, a mente cria mais um projeto. Existe um personagem aqui, uma condição ideal chamada presença lá adiante e um caminho psicológico entre os dois. O presente acaba de ser transformado em futuro. Começamos então a praticar técnicas, medir nosso progresso e perguntar quanto falta para finalmente conseguirmos estar onde nunca deixamos de estar.
Não existe caminho até o Agora.
Qualquer passo que dermos acontecerá nele.
Não precisamos fabricar o presente, conquistá-lo ou aprender a produzi-lo. Talvez precisemos apenas perceber o movimento incessante através do qual a mente nos convence de que existe alguma coisa mais importante em outro lugar do tempo. O passado diz que precisamos resolver aquilo que aconteceu. O futuro diz que precisamos garantir aquilo que acontecerá. Entre ambos, o Real permanece silenciosamente diante de nós.
O personagem precisa do tempo porque está sempre tentando preservar ou tornar-se alguma coisa. Precisa defender aquilo que foi e conquistar aquilo que será. O Ser não possui esse problema. Não precisa recordar-se para existir nem projetar-se para continuar sendo aquilo que é. Talvez seja por isso que, quando a agitação do tempo psicológico perde força, não encontremos uma versão melhor de nós mesmos, nem um personagem mais evoluído, mas alguma coisa muito mais simples e muito mais difícil de explicar: presença.
Aqui e agora, eis tudo.
O passado já foi. O futuro ainda não veio. E, quando vier, será novamente Agora. Talvez tenhamos passado a vida inteira procurando no tempo aquilo que o tempo jamais poderia nos entregar, porque tudo aquilo que realmente existe sempre esteve exatamente onde estamos.
O passado diz quem o personagem foi. O futuro promete quem ele será. O presente revela aquilo que é.
Transconhecimento
Reflexões & Comentários (0)
Nenhum comentário ainda. Compartilhe seu pensamento!
Deixe sua perspectiva