Todos almejam a liberdade, pois sentem-se aprisionados em suas próprias limitações e perdidos em emaranhados de pensamentos. Poucos, entretanto, questionam aquilo que os mantém cativos, sem sequer conseguirem enxergar as grades dessa prisão. Sentem o desconforto da cela e sonham com a amplidão, mas desconhecem as razões do próprio encarceramento.
Essa cela é imaginária e justamente por isso poucos conseguem percebê-la. Apenas aqueles que se aprofundam em si mesmos, fazendo investigações e perguntas inéditas, poderão descobrir onde estão as grades e encontrar a chave capaz de abrir a porta dessa prisão.
O homem comum não sabe que participa da construção do próprio cárcere e não compreende o paradoxo de viver aprisionado enquanto almeja a libertação. Procura do lado de fora uma saída para uma prisão construída por dentro, sem perceber que a liberdade está ao seu alcance e que existe uma única chave capaz de abrir essa porta: a renúncia.
Mas renunciar não significa necessariamente abandonar tudo aquilo que possuímos. Um homem pode desfazer-se de seus bens e continuar interiormente preso a eles. A verdadeira renúncia acontece dentro de nós. Estamos presos a tudo aquilo de que dependemos para nos sentirmos completos, pois a cela em que vivemos é construída por nossos próprios desejos e apegos. Precisamos transcender esse domínio do querer, desapegando-nos de tudo aquilo que nos mantém cativos, sejam pessoas, coisas, conceitos ou ideias.
Isso não significa abandonar o mundo ou tornar-se indiferente a ele. Significa não permitir que o mundo nos possua. Como ensinou Ramakrishna: “O barco pode estar na água, mas a água não pode estar no barco. O homem pode estar no mundo, mas o mundo não pode estar no homem”. Esse é justamente o problema: estamos intoxicados pelo mundo e, por isso, tornamo-nos cegos para a porta da própria prisão. Podemos viver, trabalhar, amar, construir e possuir; a prisão começa quando nossa plenitude passa a depender dessas coisas. Não é aquilo que possuímos que nos aprisiona, mas aquilo sem o qual acreditamos não poder viver plenamente.
Enquanto existirem desejos que condicionem nossa paz, estaremos presos aos nossos sonhos, metas e objetivos, preocupados e ansiosos por conquistas que imaginamos indispensáveis. Permaneceremos cativos daquilo que valorizamos excessivamente e consideramos necessário para nossa realização. Como afirmou Jesus: “Onde estiver o teu tesouro, ali estará também o teu coração”. Nosso tesouro não é necessariamente dinheiro; é tudo aquilo em que depositamos nossa segurança, nosso valor e nossa identidade.
Gostamos de possuir, controlar e desfrutar das sensações que o mundo oferece. Queremos conquistar aquilo que ainda não temos e, depois de conquistá-lo, passamos a temer sua perda. Assim construímos nossa própria cela: de um lado, aquilo que desejamos possuir; do outro, aquilo que não conseguimos perder. Entre o desejo e o medo da perda, comprometemos nossa liberdade.
Não há outra maneira de nos libertarmos. Podemos procurar com a lanterna de Diógenes e dificilmente encontraremos outra chave além da renúncia. Sei que a solução parece simples, mas sua execução é difícil, porque renunciar verdadeiramente significa retirar das coisas o poder que concedemos a elas sobre nós. A verdadeira renúncia não consiste em não possuir; consiste em não ser possuído por aquilo que possuímos.
Foi isso que Jesus revelou ao jovem que desejava segui-Lo quando disse: “Vá, venda tudo o que tens, dê aos pobres e vem e segue-Me”. Talvez a questão central daquela passagem não seja simplesmente a condenação da riqueza. Jesus tocou exatamente no ponto em que aquele homem não era livre. Ele queria seguir, mas havia algo que não conseguia soltar. Sua riqueza apenas revelou sua prisão.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quanto possuímos, mas do que não conseguimos abrir mão. É justamente ali que encontraremos nossas grades.
E existe ainda uma última armadilha: podemos transformar a própria liberdade em objeto de desejo. Podemos abandonar antigas ambições e passar a desejar iluminação, transcendência ou evolução com a mesma ansiedade com que antes desejávamos dinheiro, reconhecimento ou poder. O objeto muda, mas o mecanismo permanece. Nesse caso, apenas trocamos uma prisão por outra mais sofisticada.
Talvez a renúncia definitiva alcance até mesmo o desejo de libertação, porque a liberdade não é alguma coisa que precisamos conquistar. Ela aparece naturalmente quando aquilo que nos aprisionava perde o poder sobre nós.
O homem livre não é aquele que nada possui. É aquele que pode estar no mundo sem permitir que o mundo esteja dentro dele.
A porta sempre esteve ali.
A chave também.
Renunciar não é perder o mundo; é deixar de depender dele para sermos livres.
Transconhecimento
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