Você consegue viver sem desejar nada?

Claro que não. Como poderia? Se ainda desconhece a natureza das coisas, se acredita ser esse personagem transitório e vive em um mundo muito mais imaginário do que Real, como poderia deixar de desejar?

Com os olhos encantados pelas bolhas de sabão deste mundo impermanente, você continuará desejando. Desejará dinheiro, reconhecimento, segurança, pessoas, experiências, conquistas, prazeres, posições, afetos, certezas. Mudam os objetos, permanece o mecanismo. Há sempre alguma coisa adiante prometendo aquilo que o presente parece incapaz de oferecer. Há sempre um amanhã sussurrando que, quando determinada coisa acontecer, finalmente você estará bem.

É assim que o desejo trabalha.

Ele promete completar justamente aquilo que nunca esteve incompleto.

O problema é que você não sabe disso. Desconhece a própria essência e, por isso, experimenta-se como falta. Não acessou a plenitude que existe no âmago do Ser e age como um vasilhame vazio, esperando que o mundo despeje alguma coisa dentro dele. Quer ser preenchido. Precisa ser preenchido. E assim começa a peregrinação interminável atrás de objetos, pessoas e experiências capazes de atenuar o desconforto provocado pela sensação de insuficiência.

O desejo nasce dessa distância entre aquilo que somos e aquilo que imaginamos precisar ser.

É evidente que existem necessidades naturais e movimentos funcionais da existência. O corpo sente fome, procura alimento; sente sede, procura água; sente frio, procura abrigo. Não estamos falando disso. Estamos falando daquele desejo que promete completude, daquele movimento psicológico que transforma o mundo numa gigantesca prateleira de possibilidades e nos mantém permanentemente esticando os braços em direção à próxima coisa.

A mente diz: falta.

E acreditamos nela.

Grande parte dos desejos funciona como mecanismo compensatório da psique. A alma atormentada pelas próprias angústias rejeita o presente e busca refúgio em cenários imaginários. Quando o agora se torna insuportável, inventamos o depois. Projetamos um futuro onde finalmente seremos amados, reconhecidos, seguros, importantes, realizados ou felizes. Em vez de atravessar aquilo que nos incomoda, construímos uma realidade paralela onde um personagem imaginário finalmente consegue possuir tudo aquilo que julgamos necessário.

Passamos a vida procurando fora aquilo que está dentro.

É preciso coragem para perceber isso, porque o caminho verdadeiro não conduz imediatamente ao conforto. Ele nos leva para dentro, justamente ao território que passamos a vida evitando. É preciso ouvir os clamores da própria alma, reconhecer as feridas, encontrar os personagens abandonados nos subterrâneos do inconsciente e permitir que aquilo que foi condenado à escuridão finalmente encontre interlocução. Enquanto fugirmos de nossa própria sombra, precisaremos das luzes artificiais do mundo para iluminar a noite.

E o mercado sabe disso.

As religiões sabem disso.

A publicidade sabe disso.

As redes sociais sabem disso.

O mundo inteiro aprendeu a negociar com nossa sensação de insuficiência.

Primeiro nos convence de que falta alguma coisa. Depois oferece aquilo que supostamente irá preencher a falta. Compramos, conquistamos, experimentamos, possuímos e, durante algum tempo, sentimos alívio. Então a velha insuficiência reaparece. Precisamos de outra coisa. Começa novamente a procura e seguimos girando a roda, chamando de liberdade aquilo que talvez seja apenas uma forma sofisticada de escravidão.

Kant percebeu uma parte importante desse problema ao compreender que liberdade não significa simplesmente obedecer às próprias inclinações. Fazer tudo aquilo que desejamos pode parecer liberdade, mas pode signific exatamente o contrário: obediência. Se não consigo contrariar aquilo que desejo, quem está no comando? Se meus impulsos determinam minhas ações, talvez eu não seja tão livre quanto imagino.

O homem moderno possui milhares de possibilidades e chama isso de liberdade. Pode comprar, viajar, escolher, consumir, trocar, experimentar, abandonar e recomeçar. Mas continua incapaz de permanecer alguns minutos em silêncio diante de si mesmo.

Que liberdade é essa?

Os desejos nos deixam ansiosos, apreensivos, preocupados. Mal conquistamos alguma coisa e imediatamente surge outra. O objeto alcançado envelhece rapidamente diante dos nossos olhos, porque aquilo que verdadeiramente procurávamos jamais esteve nele. Não queríamos exatamente o carro, a casa, o dinheiro, a pessoa, a posição ou o reconhecimento. Queríamos o estado interior que imaginávamos que essas coisas produziriam.

Queríamos paz.

Queríamos plenitude.

Queríamos voltar para casa.

Mas procuramos a Casa no mundo.

Você consegue viver sem desejar nada?

Provavelmente não.

Ainda.

Porque enquanto acreditar ser incompleto, desejar será inevitável. Enquanto acreditar ser o personagem, precisará alimentá-lo. Enquanto imaginar que sua felicidade depende de determinadas circunstâncias, continuará tentando obrigar a existência a fornecer aquilo que julga necessário.

Como despertar desse sonho? Como sair dessa toca de Alice onde nos refugiamos e romper o encantamento dessa realidade mental?

Coragem, confiança e amor.

E confronto.

Resistir ao encontro com a própria sombra é covardia. Podemos inventar nomes mais delicados, construir justificativas psicológicas sofisticadas e decorar nossas fugas com palavras bonitas, mas fugir continua sendo fugir.

Parece radical?

É.

Aqueles que dormem profundamente às vezes precisam de tapas para despertar.

Há muitos tripulantes vivendo na ilha dos lotófagos. Na Odisseia, aqueles que provavam o lótus esqueciam-se do retorno. Já não queriam voltar para casa. Permaneciam entregues ao entorpecimento, esquecidos de sua origem e de seu destino. A imagem continua assustadoramente atual. Apenas substituímos o lótus por outras coisas. Consumimos, acumulamos, desejamos, distraímo-nos e nos entorpecemos enquanto esquecemos a Casa.

O mundo oferece milhares de maneiras de esquecer quem somos.

Para vencer o mundo, é preciso desinteressar-se por ele.

Isso não significa abandonar a vida, deixar de trabalhar, amar, criar, construir ou experimentar. Significa algo muito mais radical: deixar de pedir ao mundo aquilo que ele jamais poderá oferecer. O transitório não pode oferecer permanência. O limitado não pode oferecer plenitude. Aquilo que está submetido ao tempo não pode nos oferecer eternidade.

O problema nunca esteve nas coisas.

Está naquilo que esperamos delas.

Quando deixamos de exigir que o mundo nos complete, alguma coisa começa a morrer dentro de nós. O personagem perde alimento. Seus projetos de felicidade começam a parecer infantis. Aquilo que antes exercia um fascínio irresistível perde lentamente o brilho. Não porque o mundo tenha se tornado feio, mas porque deixamos de confundir beleza com salvação.

Talvez seja isso o verdadeiro desapego.

Não rejeitar.

Não fugir.

Não destruir.

Simplesmente não precisar.

O homem livre ainda pode preferir uma coisa a outra, escolher um caminho, amar alguém, construir uma obra, apreciar o belo e participar intensamente da existência. Mas deixou de transformar suas preferências em condições para ser inteiro. Se vier, recebe. Se partir, deixa partir. As coisas finalmente podem ser aquilo que são porque já não precisam carregar o peso absurdo de fazê-lo feliz.

Há, porém, uma última armadilha.

Quando o homem espiritual descobre que o desejo aprisiona, frequentemente começa a desejar não desejar. Quer tornar-se desapegado, iluminado, puro, sereno, evoluído. Troca os objetos, mas preserva o mecanismo. Antes desejava dinheiro; agora deseja iluminação. Antes queria tornar-se importante; agora quer tornar-se espiritual. O personagem apenas trocou de roupa.

E continua desejando tornar-se alguém.

Essa talvez seja uma das últimas e mais sofisticadas armadilhas da mente: transformar a própria libertação em objeto de desejo.

Não há nada para acrescentar ao Ser.

Nada.

Toda tentativa de completá-lo parte da ilusão de que alguma coisa lhe falta. É por isso que passamos a existência correndo atrás de miragens. Queremos encontrar no final do caminho aquilo que esteve presente desde o primeiro passo. Procuramos no mundo aquilo que jamais saiu de nós. Desejamos tornar-nos aquilo que já somos.

Talvez, portanto, a pergunta inicial esteja errada.

A questão não é saber como viver sem desejar nada.

A questão é descobrir quem é esse que precisa continuamente de alguma coisa para sentir-se completo.

Olhe para ele.

Conheça suas angústias, seus medos, suas fantasias, suas carências. Veja como ele constrói futuros para escapar do presente. Veja como transforma pessoas em promessas, objetos em salvação e conquistas em identidade. Veja como corre. Veja como implora. Veja como deseja.

E então pergunte:

Quem sou eu sem tudo isso?

Talvez a liberdade não aconteça quando você finalmente conseguir tudo aquilo que deseja. Também não acontecerá quando conseguir destruir todos os desejos.

Ela começa quando você percebe que não precisa de nenhum deles para completar aquilo que nunca esteve incompleto.