Quando alguém diz: “O problema é meu!”, devemos respeitar. Talvez essa pessoa esteja dizendo algo muito mais profundo do que imagina, porque, em última análise, o problema realmente é uma propriedade exclusivamente privada. Isso não significa que não existam acontecimentos terríveis, injustiças, perdas, violências ou tragédias; evidentemente existem. O que precisamos distinguir é o acontecimento do problema que construímos em torno dele. O fato pertence ao mundo; o significado pertence ao observador.

Nenhum problema existe fora de nós da maneira como existe dentro de nós; somos nós que problematizamos os acontecimentos quando eles encontram nossa estrutura emocional e despertam medo, raiva, culpa, ressentimento, frustração, desejo ou qualquer outro conteúdo carregado de afetividade. O acontecimento externo não cria necessariamente naquele instante tudo aquilo que sentimos; muitas vezes apenas toca algo que já estava lá. É por isso que duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e experimentá-la de maneiras completamente diferentes. Aquilo que provoca em mim um ódio visceral pode não produzir efeito algum em outra pessoa. O acontecimento é o mesmo, mas os mundos interiores que o recebem são diferentes.

Carregamos ferimentos escondidos nas gavetas da alma, alguns conhecidos, outros sequer percebidos, que permanecem silenciosos até que alguma circunstância os alcance. Uma palavra, uma rejeição, uma perda, uma crítica, uma traição ou um abandono podem despertar alguma coisa muito mais antiga do que o próprio acontecimento. A circunstância funcionou como gatilho; não criou necessariamente a ferida, apenas a encontrou. É como se o mundo, de tempos em tempos, cutucasse uma onça adormecida dentro de nós. Ele não colocou a onça ali, apenas a despertou.

Talvez seja por isso que determinadas situações retornem sob diferentes formas ao longo da vida. Mudam as pessoas, os lugares e as circunstâncias, mas alguma coisa estranhamente familiar continua se repetindo. Não precisamos sequer afirmar que alguma força misteriosa organize deliberadamente cada acontecimento para reconhecer esse fenômeno; basta observar a própria vida com suficiente atenção para perceber que conteúdos não integrados possuem uma extraordinária capacidade de reaparecer. Isso pode ocorrer inclusive porque nossa própria estrutura psíquica seleciona, interpreta e, muitas vezes, reproduz padrões compatíveis com aquilo que carregamos. O que permanece oculto acaba encontrando alguma maneira de tornar-se visível.

Dor não é sofrimento

É preciso fazer aqui uma distinção fundamental. Embora na linguagem cotidiana as duas palavras sejam frequentemente utilizadas como sinônimos, dor e sofrimento não são necessariamente a mesma coisa.

A dor pertence à experiência humana. Perder alguém dói. Uma separação dói. A rejeição pode doer. O corpo ferido dói. Existem acontecimentos capazes de produzir uma experiência dolorosa independentemente de qualquer elaboração intelectual posterior. Não se trata, portanto, de defender uma filosofia insensível na qual o homem deveria permanecer impassível diante da tragédia, nem imaginar que um elevado estado de consciência nos transformaria em criaturas imunes à dor.

O sofrimento começa em outro lugar. Ele surge quando a mente se apropria da dor, interpreta-a, prolonga-a, relaciona-a ao passado, projeta-a no futuro e constrói ao seu redor uma narrativa que passa a se repetir indefinidamente. O acontecimento termina, mas continua acontecendo dentro de nós. A pessoa foi embora, mas continuamos discutindo com ela durante anos; a ofensa aconteceu uma vez, mas a repetimos mentalmente milhares de vezes. Alguém pode nos ferir durante alguns minutos e receber, sem sequer saber, autorização para permanecer décadas dentro da nossa cabeça.

A dor diz: “Isso aconteceu e dói.” O sofrimento acrescenta: “Isso não poderia ter acontecido comigo”, “isso não deveria ter acontecido”, “eu jamais aceitarei o que aconteceu”, “minha vida teria sido outra”, “ele precisa pagar”, “nunca mais serei o mesmo”. A dor permanece ligada ao acontecimento; o sofrimento constrói ao redor dele uma existência paralela.

Talvez, portanto, um estágio mais elevado de consciência não nos torne imunes à dor, mas nos torne menos propensos a transformá-la em sofrimento. Uma pessoa profundamente consciente pode perder alguém e chorar, sentir a ausência e experimentar uma dor imensa. A diferença está em não acrescentar indefinidamente àquilo que sente uma estrutura de resistência, ressentimento, identificação e conflito com o que já aconteceu.

A dor não nega a realidade. O sofrimento começa quando a mente entra em conflito com ela.

O fato pertence ao passado, mas a experiência psicológica pode continuar acontecendo no presente. É nesse sentido que digo que o problema é meu. Não porque eu seja necessariamente culpado pelo que aconteceu, mas porque aquilo que continua acontecendo dentro de mim já pertence ao território da minha consciência.

Não há duas pessoas no mundo capazes de enxergar um acontecimento exatamente da mesma maneira, simplesmente porque não existem duas histórias interiores idênticas. Um jardim florido, por exemplo, pode despertar experiências completamente distintas: alguém se lembra da infância, outro do primeiro amor, outro apenas contempla a beleza das flores, enquanto uma quarta pessoa pode experimentar profunda tristeza porque aquele mesmo perfume estava presente no funeral de alguém querido. Onde está a tristeza? Nas flores, no perfume, no jardim? Evidentemente não. O jardim apenas encontrou uma memória.

É assim que percorremos o mundo. Acreditamos estar simplesmente olhando para as coisas quando, muitas vezes, estamos olhando para nós mesmos através delas. Culpas, remorsos, frustrações, ressentimentos, humilhações, desejos de vingança e experiências que não conseguimos elaborar permanecem armazenados no substrato emocional e passam a participar silenciosamente da construção daquilo que chamamos realidade. Criamos crenças, valores, defesas e expectativas, depois esquecemos que carregamos tudo isso e passamos a enxergar o mundo através dessas lentes. É como olhar por uma janela durante tanto tempo que nos esquecemos de que existe um vidro entre nossos olhos e a paisagem.

Os acontecimentos deveriam inicialmente ser observados como informações, mas dificilmente fazemos isso. Imediatamente os qualificamos como bons, ruins, justos, injustos, desejáveis ou intoleráveis. A mente recebe o acontecimento e procura nos arquivos do passado alguma referência capaz de interpretá-lo. Isso é compreensível, pois precisamos da memória para viver; o problema começa quando confundimos a interpretação com a própria realidade. Aquilo que penso sobre um acontecimento não é o acontecimento, assim como aquilo que sinto diante dele também não é o acontecimento: é minha experiência do acontecimento.

Essa pequena distinção abre uma enorme porta. O acontecimento pode pertencer ao mundo, mas tudo aquilo que dele experimentamos acontece na consciência. Isso não significa negar uma realidade independente de nós, mas reconhecer que jamais temos acesso a ela sem a mediação da percepção, da memória, da emoção e da própria estrutura mental. Se o significado se constitui em nós, existe também em nós a possibilidade de transformá-lo.

Talvez aqui esteja uma das consequências mais difíceis dessa ideia. Enquanto acredito que o outro é responsável pela minha paz, minha libertação depende da transformação dele. Ele precisa reconhecer, compreender, mudar, pedir desculpas, reparar, talvez até sofrer aquilo que me fez sofrer. Sem perceber, entregamos ao outro as chaves da nossa própria prisão e depois esperamos que ele venha nos libertar. Mas e se ele nunca vier? E se nunca reconhecer o que fez? E se morrer acreditando que estava certo? Estaremos condenados a carregar aquela experiência pelo restante da vida? Se minha paz depende da transformação do outro, continuo aprisionado a ele.

É justamente nesse ponto que entra uma das ferramentas mais poderosas disponíveis ao homem: o perdão. Mas talvez tenhamos compreendido muito mal o significado dessa palavra. Perdoar não é declarar correto aquilo que foi errado, absolver moralmente alguém, negar uma violência, esquecer o que aconteceu ou reconciliar-se obrigatoriamente com quem nos feriu. Nada disso define o perdão. Perdoar é mudar o significado que determinados registros da memória possuem dentro de nós.

O acontecimento não pode ser modificado, porque pertence ao passado, e a memória também não precisa desaparecer. Continuaremos sabendo o que aconteceu, poderemos nos lembrar das pessoas envolvidas, das palavras que foram ditas e até dos detalhes daquele momento. O que muda é a carga afetiva associada a esse registro. Aquilo que antes despertava raiva, culpa, ressentimento, medo ou desejo de vingança passa a existir na memória apenas como informação. A lembrança permanece; o significado que a aprisionava é que foi transformado.

É por isso que o verdadeiro perdão não depende necessariamente do outro. Não precisamos que alguém reconheça o erro, peça desculpas, arrependa-se ou sequer esteja presente. O trabalho acontece dentro de nós, porque é dentro de nós que aquele registro continua existindo. O passado é imutável, mas o significado que atribuímos a ele não é. Quando esse significado muda verdadeiramente, podemos recordar o acontecimento sem sermos novamente conduzidos ao mesmo estado emocional que ele produzia.

Perdoar, portanto, não é esquecer. Talvez seja justamente o contrário: é poder lembrar sem sofrer novamente. O fato permanece intacto na memória, mas já não possui força para determinar nosso estado interior. Aquilo que antes era uma ferida transforma-se em informação, não porque tenhamos negado o que aconteceu, mas porque modificamos a relação que mantínhamos com aquela lembrança. Nesse sentido, o perdão não altera o passado; altera aquilo que o passado ainda consegue fazer conosco no presente. É precisamente por isso que ele constitui um instrumento tão poderoso de libertação da consciência.

Talvez o primeiro perdão precise ser dirigido a nós mesmos, àquilo que não sabíamos, às decisões tomadas por medo, às escolhas equivocadas, às fraquezas, às omissões e às vezes em que fomos incapazes de ser aquilo que hoje acreditamos que deveríamos ter sido. Não podemos exigir do homem que fomos a consciência do homem que somos agora. Aceitar-se incondicionalmente não significa aprovar todos os próprios atos, mas compreender que nossa essência não pode ser reduzida aos erros cometidos durante o percurso. Depois, talvez seja possível dirigir ao outro essa mesma compreensão, não para inocentá-lo artificialmente, mas para modificar dentro de nós o significado que sua ação adquiriu.

Existe enorme resistência a essa ideia porque nos habituamos a transferir para o mundo a responsabilidade por aquilo que acontece em nosso interior. É muito mais confortável dizer: “Ele me fez sentir isso”. Talvez, entretanto, a formulação mais precisa seja: “Aquilo que ele fez encontrou isso em mim.” A diferença parece pequena, mas é enorme. Na primeira frase sou completamente dependente do mundo; na segunda começo a recuperar minha liberdade.

Isso não elimina a responsabilidade objetiva das pessoas por seus atos. Cada indivíduo continua responsável pelo que faz. Apenas separa duas coisas que costumamos misturar: a responsabilidade do outro pelo ato e a minha responsabilidade pelo destino psicológico desse ato dentro de mim. O outro responde pelo que fez; eu respondo pelo que farei com aquilo que ele fez. Talvez seja justamente aí que comece a verdadeira liberdade.

Costumamos dizer que “tudo acontece dentro da nossa cabeça”, mas talvez essa expressão seja pequena demais. Tudo aquilo que chamamos experiência acontece na consciência. O mundo apresenta acontecimentos, objetos, pessoas e circunstâncias, mas é em nós que tudo isso adquire significado. A mente interpreta, compara, classifica, recorda, projeta e julga, e frequentemente confundimos todo esse movimento com a própria realidade.

Nossa mente condicionada trabalha presa às experiências acumuladas, às injunções do campo emocional e às engrenagens construídas pelo passado. Por isso não enxergamos simplesmente aquilo que está diante de nós; enxergamos aquilo que está diante de nós mais tudo aquilo que carregamos conosco. Quanto maior a bagagem, mais difícil perceber a paisagem.

Talvez grande parte do trabalho interior consista justamente em descarregar essa bagagem, não para nos tornarmos indiferentes, mas para finalmente conseguirmos olhar sem ressentimento, sem medo, sem culpa, sem permitir que o passado ocupe continuamente o lugar do presente. A consciência não precisa tornar-se insensível para tornar-se livre. Talvez seja justamente o contrário: quanto menos aprisionada às interpretações acumuladas, maior sua capacidade de experimentar aquilo que é sem precisar deformá-lo para acomodá-lo àquilo que gostaria que fosse.

E talvez, quando isso acontecer, descubramos algo desconcertante: a realidade nunca teve os problemas que colocamos nela. Ela simplesmente era. Nós é que chegávamos carregados.

O trabalho é hercúleo e provavelmente demorado, mas isso pouco importa. Toda caminhada começa quando alguma coisa em nós percebe que não quer mais continuar carregando aquilo que sempre carregou. O primeiro passo talvez seja simplesmente reconhecer: “O problema é meu.” Não como culpa, mas como liberdade, porque aquilo que está em mim pode ser transformado em mim. Se minha paz dependesse da transformação do mundo, estaria condenado a esperar indefinidamente; se o problema está em mim, existe pelo menos a possibilidade de trabalhar sobre ele.

Depois de tantas voltas, sou obrigado a reconhecer que talvez a sabedoria popular tenha chegado antes da filosofia. Há uma dessas frases feitas que repetimos automaticamente, quase sempre sem perceber a profundidade daquilo que estamos dizendo:

“Cada um com seus problemas!”

Sim, cada um com os seus. Porque, no sentido mais profundo, não poderia ser de outra maneira.