Se você sabe o que é o Amor, sabe que nunca estará preso àquilo que ama. Você está preso a tudo aquilo que odeia, pois o ódio tem esse poder de nos escravizar, conduzir nossos pensamentos, interferir em nossas ações e influenciar nossas escolhas. Aquilo que amamos pode ser libertado, pode seguir seu caminho, pode até desaparecer de nossas vidas sem que o Amor necessariamente desapareça. O ódio, ao contrário, exige permanência. Precisamos manter vivo aquilo que odiamos para continuar odiando.

O ódio ocupa um grande espaço em nossa sombra, repousa nos arquivos do inconsciente e se manifesta através de angústias, conflitos e desequilíbrios. Esses arquivos estão imantados de raiva que não foi dissolvida e isso serve de combustível para que continuem vivos. O acontecimento pode ter desaparecido há muitos anos, a pessoa pode sequer fazer parte de nossa vida, mas alguma coisa continua acontecendo dentro de nós. O passado terminou, mas o conteúdo emocional permanece ativo.

Você pode desconhecer de onde vem o ódio, mas não pode negar que, se ele brota em seu interior, seguramente existe uma fonte. Portanto, o mais razoável é observar-se buscando essa fonte. Existe uma raiz emocional, eventos mal resolvidos, carregados de importância, vibrantes, em constante interlocução com o presente. Esse material cria ressonância com as experiências prosaicas do cotidiano e explode através de nossas reações. Quanto mais ódio carregamos, maior o nosso desequilíbrio e maior a possibilidade de construirmos uma realidade marcada por conflitos e dificuldades.

É bem verdade que a grande maioria prefere procurar culpados fora, vitimizando-se, reclamando, reagindo, elencando razões para os próprios infortúnios e olhando sempre para o mundo ao redor. É muito mais fácil encontrar um culpado do que olhar para aquilo que o culpado desperta dentro de nós. O inimigo externo nos oferece uma explicação confortável: se ele é a causa daquilo que sinto, não preciso investigar a mim mesmo.

A Natureza age sobre cada um de nós com o objetivo de provocar uma inflexão. Para isso existem a dor, a dificuldade e o sofrimento; são acontecimentos que chamam nossa atenção para aquilo que ainda permanece escondido. Enquanto continuarmos atribuindo exclusivamente ao mundo a responsabilidade por nossas reações, perderemos inúmeras oportunidades de olhar para esses arquivos e compreender por que determinadas pessoas e situações possuem tanto poder sobre nós.

O mundo ao nosso redor é um campo de informações. Quem qualifica essas informações como negativas, positivas ou neutras somos nós, através de nossa perspectiva, quase sempre contaminada por aquilo que carregamos. São nossas fragilidades, nossos pontos fracos, nossas feridas. O Universo trabalha dentro de uma dinâmica voltada para o nosso despertar, e os princípios da Natureza estão presentes nesse processo de transformação. Aquilo que não serve ao nosso Bem Maior será provocado, de forma que teremos, cedo ou tarde, de fazer esse bom combate.

Pense o seguinte: aquilo que você odeia pode não ser odiado por outra pessoa; aquilo que o irrita pode ser absolutamente indiferente ao outro. Isso é simples de entender. Portanto, existe alguma coisa sua nessa experiência. Aquilo que existe dentro de você é seu, faz parte de um material psíquico à espera de ressignificação. Tudo aquilo que você viveu e imantou de carga afetiva, atribuindo-lhe importância excessiva, permanece vivo aqui e agora, com combustível emocional suficiente para manifestar-se através de suas reações. Aquele que você trata como inimigo ou adversário muitas vezes é apenas o cesto de lixo onde você despeja suas próprias emoções.

Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de admitir, porque estamos convencidos de que odiamos em razão daquilo que o outro é. Mas, se fosse assim, todos odiariam as mesmas pessoas, seriam irritados pelas mesmas coisas e reagiriam da mesma maneira diante dos mesmos acontecimentos. Não é o que acontece. Cada um encontra no mundo aquilo que produz ressonância com seu próprio conteúdo. O outro pode apertar o gatilho, mas aquilo que explode já estava dentro de nós.

O Universo, entendendo a necessidade de renovação da alma humana, cria as condições para que esses conteúdos se manifestem e sejam enfrentados. Portanto, convivemos com inimigos, atravessamos rotinas desconfortáveis e enfrentamos situações que oferecem ressonância com todo esse substrato de ódio e revolta engavetado em nosso inconsciente. Não poderia ser de outra forma. Dentro de uma perspectiva espiritual, estamos presos ao corpo, em sucessivas idas e vindas, justamente para esgotar esse carma, enfrentar aquilo que carregamos e libertar-nos das forças que ainda nos mantêm presos.

Convivemos, muitas vezes, mais intensamente com aquilo que detestamos do que com aquilo que amamos, pois existem demandas internas que precisam ser atendidas. Não à toa, o Mestre Nazareno dizia que os inimigos do homem seriam aqueles de sua própria casa. Podemos compreender essa casa também simbolicamente: talvez os inimigos mais difíceis estejam muito mais próximos do que imaginamos. Alguns habitam dentro de nós.

O ódio se mascara de muitas formas. Pode aparecer na culpa, no remorso, na indignação permanente, no preconceito, na discriminação e em inúmeras formas de hostilidade. Aquele que vive esmagado pela culpa ou pelo remorso pode voltar contra si mesmo a mesma violência que dirigiria ao mundo. Aquele que se coloca permanentemente em guerra contra a existência também precisa investigar qual sentimento sustenta essa guerra.

Orgulho, arrogância, inveja e tantos outros vícios mentais podem encontrar alimento nesse mesmo terreno. Diferentemente da raiva, que considero uma reação natural e presente nos seres vivos, o ódio exige elaboração. A raiva pode surgir e desaparecer; o ódio precisa ser alimentado. Precisa de memória, justificativa, narrativa, julgamento e repetição. Nesse sentido, o ódio é conceitual: ele precisa de uma história para continuar existindo.

E talvez esteja justamente aí sua capacidade de nos aprisionar. Para continuar odiando alguém, precisamos levá-lo conosco. Precisamos recordar o que fez, reconstruir suas palavras, reafirmar sua culpa, alimentar nossa indignação. Pensamos que expulsamos o inimigo de nossa vida, mas oferecemos a ele residência permanente dentro de nós. O odiado pode estar a milhares de quilômetros de distância, pode ter desaparecido há décadas e até morrido, mas continua determinando nossos pensamentos, nossas emoções e nossas escolhas.

Quem está preso a quem?

Aqueles que acreditam na violência acabam vivendo dentro da própria violência. Aqueles que pregam o ódio carregam consigo o inferno que pretendem oferecer aos outros. Não precisamos esperar qualquer punição exterior: permanecer preso àquilo que se odeia já é, por si só, uma forma de sofrimento.

Muitos se dizem cristãos e, ainda assim, espalham discursos de ódio, elegem inimigos e justificam sua hostilidade em nome das próprias crenças. Esquecem justamente aquilo que está no centro da mensagem que dizem seguir. Jesus não ensinou seus discípulos a selecionar aqueles que mereciam seu Amor. Foi muito mais radical.

“Amai-vos uns aos outros.”

Talvez porque o Amor liberte.

O ódio, não.

O ódio precisa manter o inimigo vivo para continuar existindo.