Andar de aldeia em aldeia, sentado em seu cavalo, perguntando: "Alguém viu o meu cavalo?" — esse é o retrato exato do que acontece conosco. Estamos todos sentados naquilo que estamos buscando. Somos como um mendigo pedindo esmolas em frente a um grande castelo, sem saber que o castelo e o trono lhe pertencem. O cavalo está debaixo de nós, mas passamos a vida perguntando por ele.

O homem busca pelo Reino de Deus, pelo Nirvana, pelo Fana, pelo Satori, pela realização de si mesmo — sem entender que aquilo que tanto procura é, na verdade, o seu estado natural. Ele já é tudo o que ambiciona ser. O que impede essa percepção é um manto ilusório que aprisiona a humanidade, tecido pelos fios do medo e do desejo, ambos alimentados pela total ignorância de si mesmo. O buscador torna-se o maior obstáculo, porque não se trata de buscar nada — apenas de reconhecer aquilo que já é. Como você pode encontrar algo que nunca perdeu? Como pode ver o próprio olho sem um espelho?

Infelizmente, esse é o estágio atual da Consciência humana, que ainda estertora nas trevas da falta de conhecimento. O homem quer enxergar o próprio olho, e isso é impossível — a menos que ele pare de olhar para fora e comece a olhar a partir de dentro.

Só esse reconhecimento pode nos libertar. É tão óbvio que tenho até vergonha de ficar repetindo, mas o óbvio só é óbvio para quem já despertou. O conhecimento libertador não será alcançado através de uma fé cega em discursos doutrinários, nem em crenças fruto de interpretações equivocadas de escrituras sagradas. Nada disso. Essa libertação virá através de um retorno ao nosso estado natural — no silêncio, na contemplação, na desidentificação com os pensamentos. Olhe-os como nuvens que surgem e desaparecem, levadas pelo vento, sem que você precise agarrá-las ou combatê-las. Elas são apenas um campo de informações difusas que não devem desestabilizar o seu estado natural. Você não é o que pensa; você é aquilo que observa o pensamento.

O conhecimento da Verdade se dará de dentro para fora, através de insights, reflexões profundas, percepções que surgem descortinando o manto ilusório de conceitos que se interpõem entre você e a realidade. Esse conhecimento não precisa de informações, de parâmetros, de intermediários. Ele é o próprio saber — um saber que dispensa a intermediação da mente, porque a mente, com seu barulho constante, é justamente o que o obscurece.

Não estou aqui para criticar as religiões. Sei da importância de cada uma delas, porque enquanto a luz do sol não surgir, é necessário, sim, acender uma vela nessa escuridão. O problema é que essa vela, mais cedo ou mais tarde, irá apagar-se — pois tudo é transitório. Portanto, urge buscarmos essa luz que está encoberta em nosso Ser, não fora dele. As respostas virão, a luz irá surgir e a paz será instaurada de forma definitiva — não porque você a conquistou, mas porque você finalmente parou de lutar contra ela.

No momento em que fizermos essa inflexão para dentro — e, através do silêncio, permitirmos que a nossa voz interior nos guie — as portas da percepção se abrirão. Não é preciso buscar nada, construir nada, fazer nada. Pelo contrário: é necessário deixar de fazer, de esperar, de querer e, principalmente, de ser alguma coisa — uma vez que já somos tudo aquilo que precisamos ser. A busca pressupõe ausência; a verdade pressupõe presença plena.

Você ainda irá perceber que o Guru, o Cristo, o Buda — tudo aquilo que você reverencia — já existe em você. Só precisa ser reconhecido. Todo o resto são delírios de uma alma perdida na ignorância de si mesma. Deixe os cegos continuarem guiando outros cegos; venha para a luz da Verdade. Comece desapegando-se de conceitos, crenças, tradições, padrões. Renuncie a tudo. Queira nada. Faça nada. Seja nada. Parece bobagem o que estou te dizendo — e talvez seja, para quem ainda acredita que a verdade se conquista com esforço. Mas um dia, essas palavras encontrarão ressonância em ti.

Quando não existir mais nada a perder — quando você conseguir livrar-se de todos esses penduricalhos que usas para viver nesse mundo — irás despertar. Não antes. Porque é preciso perder tudo para conhecer Tudo. É preciso esvaziar o copo para que ele possa ser cheio. É preciso calar o barulho para que o silêncio fale.

"É morrendo que se vive para a Vida Eterna." (Francisco de Assis)