Para um ser consciente não existe perda, simplesmente porque não existe posse. Você só pode perder coisas às quais se apega, só pode sofrer com a ausência de alguém se não aprender a libertar-se da ilusão de possuí-lo. O apego é sempre contrário à Dinâmica Universal, ou seja, todo o Universo trabalha para arrancar à força aquilo que, de alguma forma, estiver prendendo a sua atenção. Você não percebe, mas acaba escravo daquilo que possui, sejam pessoas, objetos, conceitos, enfim, tudo aquilo que tentar segurar será arrancado de você pelas ações cósmicas. Essa é a Lei. As necessidades que nos induzem por esse caminho dizem muito sobre o nosso estágio de consciência.
O Universo está em movimento e o homem precisa mover-se com a Vida, e não ficar preso pelo encanto de alguma coisa, uma vez que também faz parte desse Universo. Não deve tentar ancorar-se na identificação com aquilo que é impermanente. Tudo passa, tudo muda, tudo se transforma, mas insistimos em segurar. Queremos que as pessoas permaneçam, que as coisas permaneçam, que o corpo permaneça, que as relações permaneçam, que nossas conquistas permaneçam. Não percebemos que estamos tentando interromper a própria Dinâmica Universal. O apego é sempre uma tentativa de fazer permanecer aquilo que, por sua própria natureza, precisa passar.
Sofremos com as perdas quando deveríamos aprender a soltar, liberar e perder. Cada coisa que julgamos possuir torna-se um pedaço do nosso ser, uma espécie de membro que ganhamos. Quando existe a perda, é como se houvesse uma amputação, como se perdêssemos uma parte do nosso corpo e, com isso, surgem a dor e o sofrimento. Não é preciso dizer que esses efeitos nascem da ilusão da posse. Incorporamos pessoas, coisas, posições e conceitos àquilo que acreditamos ser e depois sofremos quando a Vida simplesmente segue seu curso e os leva embora.
Um fenômeno interessante acontece com o homem nesse nível em que se encontra: ele constrói um falso eu e passa a vida inteira tentando realizá-lo. Acredita, de forma prepotente, que está no controle. A Consciência é extremamente poderosa, mas o livre-arbítrio desse personagem criado pela mente humana é semelhante ao de um peixe dentro de um aquário. Ele pode nadar para um lado ou para o outro, pode acreditar que está escolhendo seus caminhos, mas continua dentro do aquário.
Não estamos no comando de nada, nem somos os artífices do nosso destino, porém não entendemos profundamente isso. Acreditamos que somos os responsáveis pela nossa realização, que nossa felicidade depende de conquistas materiais ou realizações mundanas. Estamos totalmente seduzidos pelo poder e saímos em busca de uma elevação qualquer que nos traga algum tipo de destaque. Queremos subir, crescer, aparecer, conquistar, tornar-nos importantes. Passamos a vida tentando realizar esse personagem sem perceber que toda essa necessidade de elevação nasce justamente da incapacidade de aceitarmos aquilo que somos.
É o que retrata, simbolicamente, a passagem de Zaqueu. Ele era um homem de baixa estatura que resolveu elevar-se artificialmente para encontrar a realização, representada por Jesus. Subiu num sicômoro para vê-lo, mas essa mesma realização tratou de mandá-lo descer e colocar novamente os pés no chão. Zaqueu precisou desinflar o ego, isso representa a descida; precisou voltar a ser o que era, reconciliar-se consigo mesmo, para então ouvir de Jesus: “Hoje a salvação entrou nesta casa”. Perceba a beleza do símbolo: Zaqueu sobe para encontrar Jesus, mas Jesus manda Zaqueu descer. A realização não estava na elevação. Era preciso voltar para Casa.
O homem ainda não percebeu que veio ao mundo para perder e não para ganhar. Tudo aquilo que ele ganha o escraviza; em contrapartida, tudo aquilo que ele perde o liberta. Isso é tão óbvio que sinto até constrangimento em dizer. Passamos a vida inteira acumulando coisas que teremos obrigatoriamente de abandonar. Construímos nossa segurança sobre aquilo que é impermanente e depois chamamos de tragédia o momento em que a impermanência simplesmente cumpre a sua natureza.
É preciso perder importância, grandeza, relevância, notoriedade, pois tudo isso faz parte de um falso eu inflado por desejos e sonhos. Tudo aquilo que perdemos nos torna mais leves, pois esse objeto externo, de alguma forma, funcionava como uma gaiola para o nosso Ser. Quanto mais coisas incorporamos ao personagem, mais coisas precisamos carregar, defender e preservar. Pensamos que possuímos, mas somos possuídos. Pensamos que seguramos, mas somos aquilo que está sendo segurado.
É preciso perder a descrença para que a confiança possa surgir, é preciso perder a tristeza para que a alma possa alegrar-se, é preciso perder o orgulho para que a humildade se manifeste, é preciso perder a inveja e o medo para que a coragem apareça, é preciso superar o desânimo e a preguiça para que a perseverança se revele, é preciso perder a ansiedade, a preocupação e a insegurança para que a alma encontre a serenidade e, finalmente, é preciso perder o interesse por tudo aquilo que nos prende ao mundo para que o homem possa transcendê-lo através da renúncia. Não precisamos fazer nada para nos tornarmos melhores, basta deixar de fazer, deixar cair, deixar ir, pois tudo aquilo que buscamos já está pronto em nossa essência.
Percebam que estamos aqui para perder e não para ganhar. O próprio Jesus dizia: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8:36). Passamos a existência inteira querendo ganhar o mundo e não percebemos que talvez seja exatamente esse mundo acumulado ao redor do personagem que nos impede de encontrar aquilo que somos.
Lembro-me bem da canção de Arnaldo Antunes e Nando Reis quando diz que, quando não houver mais nada — nem chão, nem escada, escudo ou espada — o coração acordará. Em contrapartida, enquanto estivermos com tudo, lã, cetim, veludo, espada e escudo, nossa Consciência continuará adormecida. A imagem é perfeita: queremos chão porque temos medo de cair, queremos escadas porque desejamos subir, queremos escudos porque precisamos nos defender e queremos espadas porque ainda acreditamos que precisamos vencer.
Talvez ainda não tenhamos compreendido a dinâmica desse jogo. Desde que chegamos aqui somos ensinados a ganhar, acumular, conquistar, crescer e tornar-nos alguém, quando todo o movimento espiritual parece acontecer na direção contrária. Não se trata de acrescentar alguma coisa ao Ser, mas de retirar aquilo que colocamos sobre ele. Não precisamos conquistar nossa Verdadeira Natureza, precisamos perder aquilo que nos impede de reconhecê-la.
É preciso perder.
Perder o medo, perder o orgulho, perder a necessidade de reconhecimento, perder a importância, perder as identificações, perder a necessidade de controlar, perder o personagem.
Perder tudo aquilo que pode ser perdido.
Porque aquilo que verdadeiramente somos ninguém poderá arrancar de nós.
Transconhecimento
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